Comer intuitivo (CI) é uma abordagem científica criada e desenvolvida pelas nutricionistas americanas Evelyn Tribole e Elyse Resch com a publicação de um livro, agora em sua quarta edição e com tradução para o Brasil1,2.

 

Mas o que é a abordagem do Comer Intuitivo?

Intuição não tem nada de místico aqui neste título, e sim remete a uma sabedoria interior, no caso, para o comer. Sim, comer, não alimentação.

Alimentação tem a ver com relações humanas mediadas pela comida, incluindo aspecto culturais e socioeconômicos, sendo uma criação histórico-cultural.

Comer é um ato voluntário de colocar alimento/comida na boca e corpo. As autoras definem Comer Intuitivo como um estilo flexível de alimentação em que você permanece amplamente fiel às suas sensações internas de fome e saciedade para avaliar quando comer, o que comer e quando parar de comer.

Desta forma, o Comer Intuitivo tem como objetivo ajudar as pessoas a confiarem no próprio corpo, a comer de acordo com os sinais internos, a melhorar sua relação com a comida e, abrir mão de dietas restritivas e regras externas. 1,2

 

Quais sãos os pilares do Comer Intuitivo?

  1. Permissão incondicional para comer (com sintonia).
  2. Comer para atender as necessidades fisiológicas e não emocionais.
  3. Seguir os sinais internos de fome e saciedade.
  4. Congruência de escolha corpo-comida1,2.

 

Quais são os princípios do Comer Intuitivo? 

A abordagem usa 10 princípios como guias para fazer as pazes com a alimentação e o corpo, eles podem ser lidos em sequência no livro, aplicados em programas de tratamento, mas também trabalhados na ordem em que se achar mais interessante e necessário na prática clínica do atendimento nutricional1,2. São eles (www.comerintuitivo.com.br):

  1. Rejeitar a mentalidade de dieta
    Para comer de forma intuitiva é fundamental rejeitar as dietas, não apenas não fazê-las, mas também abandonar a mentalidade de dieta, que é decidir sobre o que, quando e quanto comer por regras externas, e determinadas por outros. Só você deve ser o especialista no seu corpo!
  2. Honrar a fome
    Nossas sensações internas devem ser nosso guia para comer, e atender a fome é fundamental para comer uma quantidade e qualidade que satisfaçam as necessidades de nossos corpos. Honrar traz o sentido de respeitar, confiar nestes sinais. Mas é preciso aprender a percebê-los
  3. Fazer as pazes com a comida
    Embora diferentes nutricionalmente, todas as comidas devem ser equivalentes emocionalmente. É preciso abandonar as listas de permitidos e proibidos, para não entrar em ciclos de restrição e exagero.
  4. Desafiar o policial alimentar
    Os pensamentos de culpa e julgamento não ajudam a comer de forma mais saudável, pelo contrário, podem gerar reações do tipo “tudo ou nada”. A estação de polícia normalmente está em nossas mentes. Como você tem se tratado quanto as suas escolhas alimentares? É preciso aprender a se tratar com bondade, permissão e esperança.
  5. Sentir a saciedade
    Da mesma forma que se deve honrar a fome, é preciso aprender a sentir a saciedade e respeitá-la. Para tanto é fundamental comer com atenção e calma e prestar atenção aos sinais do corpo.
  6. Descobrir o fator  satisfação
    Respeitar a fome e a saciedade é fundamental, mas também é muito importante comer o que satisfaz: a boca, o apetite, a vida! Para isto é fundamental comer o que se tem vontade, e por isto fazer as pazes com a comida é tão importante.
  7. Lidar com as suas emoções com gentileza
    Somos influenciados pelas emoções com relação a nossa maneira de comer. Mas é preciso encontrar, experimentar e usar maneiras de se alimentar, distrair, resolver questões sem usar a comida. Comer emocional é quando a comida é usada para regular emoções. É preciso prestar atenção ao sentimento real, e buscar aquilo que atenda a este sentimento.
  8. Respeitar o seu corpo
    É muito difícil comer de forma intuitiva quando não se tem respeito pelo próprio corpo. Mesmo quando há insatisfação e desejo de mudar, é preciso avaliar metas realistas, e respeitar o corpo independente de seu tamanho e peso, como morada de nosso ser e nosso instrumento de vida.
  9. Movimentar-se – sentindo a diferença
    O movimentar-se deve ser guiado pelas sensações que temos ao fazê-lo, e não para queimar calorias, emagrecer, enrijecer… Tudo o mais são consequências. Da mesma forma que o comer, colocar o corpo em movimento pode ser também intuitivo: quando deixamos nossas sensações e corpo nos guiarem pelo que nos dá mais prazer, pelo que nos faz bem.​
  10.  Honrar a sua saúde com uma nutrição gentil
    O comer intuitivo não desconsidera nenhuma das recomendações nutricionais sobre diretrizes para alimentação saudável, mas defende uma nutrição gentil. Quando se abandona as dietas, se honra a fome, se percebe a saciedade, a satisfação é encontrada, quando se faz as pazes com a comida a consequência será uma

 

Por que a abordagem “Comer Intuitivo” é científica?

As pesquisas científicas com Comer Intuitivo se tornaram possíveis com desenvolvimento de escalas psicométricas, que são questionários, desenvolvidos com metodologia que permite avaliarem de verdade o que estão propondo. A primeira por publicada por Hawks et al. (2004)3 (11), a Intuitive Eating Scale, seguindo os princípios básicos do CI com 30.

Posteriormente, Tylka (2006) 4 desenvolveu uma nova escala também denominada Intuitive Eating Scale (IES) avaliando e propõe exatamente os três pilares principais do CI, e esta escala foi redefinida em 20135 com o objetivo de aprimorá-la, com adição de um quarto fator denominado “congruência de escolha corpo-comida”, que avalia um consumo que honra a saúde por meio de uma nutrição gentil; ou seja, a tendência de escolher alimentos que promovam a saúde e funcionamento do corpo, com 23 itens. Esta versão da IES-2 foi adaptada e avaliada para o português validada por da Silva et al. (2018) 6.

Estudos de validação de alguma das versões da IES têm sido realizados em diferentes grupos como em adolescentes, e gestantes, e ainda para diferentes países que incluem, por exemplo, versões para o árabe, francês, francês-canandense, alemão , turco e para a população hispano-americana.

A abordagem do Comer Intuitivo vem sendo fundamentada cada vez mais com evidências e crescimento da publicação de trabalhos científicos – mais de 200 até o momento.

Como o foco da abordagem Nutrição Comportamental é o comportamento alimentar, o CI é um modelo que acrescenta – à de pesquisa, e a clínica – por permitir trabalhar as crenças, sentimentos, pensamentos e relacionamento com a comida com este pilares e princípios.

A publicação do livro Nutrição Comportamental, trazendo um capítulo sumarizando o CI desde sua primeira edição, popularizou o conhecimento deste modelo entre nutricionistas.7 Mas com certeza, vale a pena divulga-lo muito mais, por todas suas possibilidades e resultados promissores no trabalho para uma relação mais saudável com a comida.

💡 Se deseja aprofundar seus estudos:

Curso Comer Intuitivo: ampliado e atualizado

Referências:

  1. Tribole E, Resch E. Intuitive eating – A revolutionary anti-diet approach. 4th ed. St. Martin’s Press; 2020. 344 p.
  2. Tribole E, Resch E. Comer Intuitivo – Uma revolucionária abordagem antidieta. Sextante; 2021.
  3. Hawks S, Merrill RM, Madanat HN. The Intuitive Eating Scale: Development and Preliminary Validation. American Journal of Health Education. 2004;35(2):90–9.
  4. Tylka TL. Development and Psychometric Evaluation of a Measure of Intuitive Eating. Journal of Counseling Psychology. 2006;53(2):226–40.
  5. 5. Tylka TL, Kroon Van Diest AM. The Intuitive Eating Scale–2: Item refinement and psychometric evaluation with college women and men. Journal of Counseling Psychology. 2013;60(1):137.
  6. da Silva WR, Neves AN, Ferreira L, Campos JADB, Swami V. A psychometric investigation of Brazilian Portuguese versions of the Caregiver Eating Messages Scale and Intuitive Eating Scale-2. Eat Weight Disord. 3 de agosto de 2018.
  7. Alvarenga MS, Figiueiredo M. Comer Intuitivo. In: Nutrição Comportamental. 2 ed. São Paulo: Manole; 2019.Especial por
    Marle Alvarenga

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