Esta conversa é necessária porque a nutrição infantil  é um fértil campo de estudo para a Nutrição Comportamental. Associado a isso acreditamos em uma forte  parceria do nutricionista com o pediatra na prática desta abordagem. Portanto, na prática clínica moderna, é fundamental que a nutrição comportamental converse com a pediatria.

E para isso, convidamos Dra. Denise Lellis para escrever em nosso blog e também participar em uma LIVE em nosso instagram. Confira texto na íntegra aqui:

Um pouco de história sobre história da saúde e da pediatria:

“O começo é a metade do todo”.

Essa frase é atribuída a Platão, filósofo da Grécia antiga, mais precisamente do ano 400 antes da Era Comum. Naquela época os filósofos já alertavam seus discípulos para a importância do “começo” como parte fundamental do “todo”.

Não necessariamente essa alusão dizia respeito à infância ou à saúde humana, mas a ciência do terceiro milênio não deixa dúvidas de que essa premissa é mais verdadeira do que jamais imaginamos.

A história evolutiva do Ser Humano nos fez chegar até aqui enfrentando a falta. E foi a possibilidade de falta iminente que sempre moldou cada célula do nosso organismo biológico, social e emocional.

E com essa “memória biológica” chegamos até esse momento histórico em que nunca morremos tão pouco, nunca fomos tão saudáveis, nunca vivemos tanto, nunca fomos tão pacíficos e nunca tivemos tanta informação.

E o que isso interfere na pediatria?

A mortalidade infantil nunca foi tão baixa, a expectativa de vida ao nascer nunca foi tão alta e as doenças infecciosas que assolavam a infância nunca foram tão controladas.

Todas essas afirmativas anteriores parecem estranhas? Basta correr os olhos pela História de meio século atrás e as desvantagens estatísticas já ficam claras. De acordo com o IBGE a taxa de mortalidade infantil caiu de 146,6 para 12,8 a cada 1000 nascidos vivos de 1940 até 2020 sendo hoje as principais causas de óbito nessa população, aquelas ligadas a complicações do período neonatal e síndromes congênitas1.

E quanto mais “para trás” a gente olha, piores ficam os números. Na França do Século XVIII por exemplo houve momentos em que a mortalidade infantil chegava a 50%2!

Isso porque a luta das gerações anteriores para enfrentar a fome e as doenças infecciosas obtiveram um grande sucesso e apesar de ainda haver muito para melhorar, nossa luta contra a falta parece ter dado lugar à luta contra o excesso.

Da “falta” para o “excesso” – e o “porque”da abordagem nutrição comportamental?

Os “sofrimentos” da infância atual não estão sendo enfrentados em leitos hospitalares e sim dentro de casa, na escola e em especial na frente das telas e quase sempre a origem do sofrimento está relacionada a excessos, comportamento e estilo de vida.

Do ponto de vista nutricional por exemplo a desnutrição deu lugar ao excesso de peso e a falta de comida deu lugar à dificuldade alimentar.

Estudos recentes preveem que em 2030 22,8% das crianças brasileiras terão obesidade3, outros mostram que, no mundo, cerca de 50% das mães de crianças consideradas saudáveis queixam-se de que seus filhos não comem4 e frequentemente esses diagnósticos se misturam.

Está cada vez mais claro, entretanto que as respostas para esse cenário estão  menos no O QUE  as crianças comem e  mais no COMO, ONDE E PORQUE eles comem, e em especial nas atitudes de quem os alimenta.

Para a pediatria, as atitudes dos pais interferem no comportamento alimentar da criança?

Já existem fortes evidências por exemplo de que atitudes parentais na hora de alimentar seus filhos são os fatores mais relacionados ao comportamento alimentar da criança assim como na determinação da relação das crianças com a comida5.

Atitudes parentais, entretanto, são muito determinadas pela própria relação dos pais com a comida e essa “herança” parece ser tanto genética como comportamental6.

O maior argumento que justifica o interesse da pediatria neste contexto é que, nos dias de hoje, sendo adequado ou não, o pediatra é o profissional que mais frequentemente orienta a amamentação, a introdução alimentar e a alimentação infantil como um todo.

Mas o pediatra hoje está preparado?

No entanto, a formação médica atual bem como a residência em pediatria, não parecem ser suficientes hoje para capacitar um pediatra com todas as habilidades necessárias para a real prevenção dos problemas alimentares infantis, haja vista os números citados anteriormente.

Isso porque a pertinente necessidade de aprender a tratar doenças, fazer diagnósticos e prescrever medicamentos não tem permitido que um pediatra aprenda a promover saúde de forma eficaz.

Senso assim, na prática acabamos “medicalizando e prescrevendo” a alimentação infantil já que nosso olhar estritamente biológico dá pouco lugar aos aspectos humanos, cognitivos, comportamentais, emocionais e sociais da comida e do comer.

E é justamente este o PORQUE a nutrição comportamental conversa com a pediatria!

E como a Nutrição comportamental pode conversar com a pediatria?

A Nutrição Comportamental com sua visão holística sobre alimentação e nutrição é um excelente caminho para preencher essa lacuna na formação pediátrica, uma vez que traz ferramentas muitas vezes desconhecidas pelo pediatra, mas que podem proteger e direcionar o começo da vida alimentar dos futuros adultos.

Uma destas ferramentas é o “comer intuitivo”– já abordado neste blog. E que busca resgatar uma característica inata das crianças: sua habilidade de pedir comida ou parar de comer, sinalizando que está satisfeito.

Entretanto, cuidadores e pais desafiam esta sabedoria nata negociando sobremesas após a criança finalizar a refeição todinha, oferecendo colheradas de aviãozinho à boca, dizendo: só mais essa para você ir brincar. Mediante este cenário, a criança vai dissociando o parar de comer por sinais internos de fome e saciedade e, substituindo por sinais externos. Como resgatar isso? Permitindo um cenário favorável para que a nutrição comportamental converse com a pediatria.

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E se Platão estiver certo, investir no “começo” parece ser a forma mais sábia de, garantir um “todo” muito mais saudável e feliz, o que faz ainda mais sentido se pensarmos que vamos comer até o ultimo dia de nossas vidas.

 

Autoria: 

Dra. Denise Lellis, pediatra, Mãe da Mariana e do Miguel. Pediatra com título de especialista pela SBP. Doutorado pelo HC-FMUSP. Pós-Graduação em Nutrologia pelo Instituto da Criança e ABRAN. Pediatra da Liga de Obesidade Infantil do HC-FMUSP. Membro do departamento de Obesidade infantil da ABESO. Membro do American College of Lifestyle Medicine. Pós-Graduação em Nutrição Pediatrica pelo Boston University School of Medicine.

 

Referências

  1. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/23206-expectativa-de-vida-do-brasileiro-sobe-para-76-anos-mortalidade-infantil-cai acessado em outubro de 2018.
  2. Pancino, Claudia, & Silveria, Lygia. (2010). “Pequeno demais, pouco demais”. A criança e a morte na Idade Moderna. Cadernos de História da Ciência, 6(1), 179-212.
  3. Disponível em: https://www.worldobesity.org/nlsegmentation/global-atlas-on-childhood-obesity
  4. Kerzner B,Milano K, MacLeanWC, Berall G, Stuart S, Chatoor I. A practical approach to classifying and managing feeding difficulties. Pediatrics. 2015;135(2):344–5.
Mais referencias:

5. Trajectories of Picky Eating in Low-Income US Children Carmen Fernandez, Harlan McCaffery, Alison L. Miller, Niko Kaciroti, Julie C. Lumeng and Megan H. Pesch Pediatrics June 2020, 145 (6) e20192018.

6. Green, Robin John et al. “How to improve Eating Behaviour during Early Childhood. “ Pediatric gastroenterology hepatology & nutrition 18.1 (2015): 1-9

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