A microbiota intestinal pode influenciar as escolhas alimentares? Um dos aspectos interessantes que a ciência vem revelando é a possibilidade da microbiota intestinal estar relacionada de alguma maneira com nossas escolhas alimentares.

Desde que as fibras alimentares foram identificadas como prebióticos, parece adequado afirmar que o que comemos determina a qualidade e a diversidade da microbiota intestinal. O que se percebeu é que esta é uma via de mão dupla; ou seja, as bactérias da nossa microbiota também podem influenciar nas nossas escolhas alimentares!

Acredita-se que as bactérias podem afetar a seleção de alimentos específicos, aumentando o desejo do indivíduo por alimentos favoráveis para o seu crescimento e desfavoráveis para o de microrganismos competidores, podendo até provocar disforia (inquietude) até que os alimentos favorecedores sejam ingeridos.

A microbiota intestinal pode influenciar as escolhas alimentares? Relação entre a Abordagem NC e as escolhas

A Abordagem Nutrição Comportamental coloca o paciente e sua relação com a comida no centro do cuidado, analisando aspectos físicos e também sociais/emocionais envolvidos no comportamento alimentar.

Muitas vezes o paciente diz, na consulta, que não “consegue se conter”, comendo descontroladamente um ou mais tipos de alimentos. Nosso enfoque como nutricionistas é avaliar se ele vem de uma conduta restritiva, ingerindo poucas calorias ou até mesmo excluindo alimentos ou grupos alimentares por motivos diversos, já que a restrição de alimentos específicos e/ou de calorias costuma levar à comportamentos compensatórios. Então o nutricionista vai propor ajustes alimentares para incluir todos os grupos de alimentos, compensar deficiências de nutrientes e vai também trabalhar as questões psicossociais relacionadas àquele alimento ou à forma de comer.

Adicionalmente, agora os nutricionistas devem considerar a hipótese deste descontrole ser também provocado pelas bactérias da microbiota intestinal.

Comunicação da microbiota com o cérebro

A atuação das bactérias ao longo do que se denominou eixo intestino-cérebro parece ser responsável por alterações no controle do apetite e das funções cerebrais que estariam na origem e na progressão dos transtornos alimentares edo abuso de álcool e outras substâncias.

O efeito da microbiota intestinal na saúde humana é uma área de crescente interesse na neurobiologia e na psiquiatria, pois já se sabe que as bactérias exercem um papel fundamental nas funções cerebrais, através da regulação da bioquímica do cérebro. Ou seja, as bactérias da microbiota se comunicam com o Sistema Nervoso Central, regulando a neuroquímica do cérebro e até mesmo o comportamento emocional e o comportamento alimentar, através:

  • Do aumento da atividade das vias de recompensa e de saciedade;
  • Da produção de neurotoxinas que alteram o humor e podem aumentar o apetite;
  • Da ativação de receptores (incluindo receptores de sabores), consequentemente afetando o comportamento alimentar;
  • Da produção de metabólitos microbianos e também neurometabólitos;
  • Da sinalização direta para o cérebro via nervo vago;
  • Da estimulação de mediadores inflamatórios e imunológicos.

Como trabalhar com esta nova informação?

Existe um crescente interesse em utilizar estratégias alimentares para modular a composição e as funções metabólicas da microbiota para melhorar a saúde e para prevenir e tratar doenças, já que dietas de baixa qualidade nutricional podem diminuir a diversidade microbiana intestinal. O desequilíbrio entre micróbios patogênicos/comensais está relacionado ao risco aumentado para doenças mentais e existe uma relação inversamente proporcional entre a doença mental e a qualidade da dieta.

Enquanto avançam os estudos, antes de se preocupar com cepas específicas e suplementos, o nutricionista deve focar sua atuação em propor alterações nutricionais positivas, que possam contribuir para a diversidade da microbiota intestinal e para a diminuição tanto da inflamação crônica de baixo grau como da permeabilidade intestinal.

É importante saber que aumentar a diversidade bacteriana intestinal parece limitar a capacidade das bactérias em controlar as escolhas alimentares do hospedeiro, e que a diversidade das bactérias intestinais está relacionada com a presença e com a variedade de fibras alimentares na dieta. Sendo assim, melhorar a qualidade da alimentação colaboraria para aumentar a diversidade das bactérias intestinais.

Estas novas perspectivas colocam o nutricionista no centro do cuidado do paciente e abrem novos horizontes para abordagem do nutricionista com relação ao comportamento alimentar.

Especial por

Marcia Daskal, é nutricionista pela USP, Mestre em Ciências aplicadas à pediatria pela EPM-Unifesp e especialista em Nutrição e dietética (nutrição do adolescente) pela Associação Brasileira de Nutrição e em Fitoterapia pela Faiara. Fez formação em coaching de Saúde e Bem-Estar pela Wellcoaches School of Coaching. Fundadora da Recomendo – Nutrição e Qualidade de Vida, trabalha trazendo a ciência para mais perto dos consumidores e dos profissionais. Criadora do conceito de Nutrição Amorosa® e dos materiais de educação nutricional #NutriçãoForadaCaixa e #NutriçãoForadaCaixinha.

Para saber mais, consulte: Daskal, M; Quaresma, MVLS. Eixo intestino-cérebro e alimentação. In: Kachani, AT; Cordás., TA. Nutrição em Psiquiatria. 2 edição. São Paulo, ed Manole, 2021. Pp.138-149.

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