O que o comer diz sobre sua identidade? Você acredita que seu jeito de comer tem a ver com sua identidade como pessoa?

As escolhas alimentares são tão rotineiras que podem dar a falsa impressão de que são instintivas. Isso significa que aprendemos a comer, mas esse aprendizado passa desapercebido, o que faz parecer que já nascemos preferindo camarão a escorpião ou alface a urtiga, quando na verdade nos é ensinado a desejar um desses alimentos e a rejeitar o outro. 

Comemos o que a cultura e grupo social validam como comida

Nosso jeito de comer funciona como outras manifestações da cultura, nos identifica para nossos semelhantes e nos representa para aqueles que estão fora do grupo. É apenas no contato com esses segundos, os “outros”, que temos a oportunidade de perceber que nosso jeito de comer é apenas um entre tantas outras possibilidades de se resolver as questão da nutrição.

A convivência com outros grupos culturais facilita a percepção do caráter eletivo da nossa alimentação: diante de tantas possibilidade que o corpo humano nos permite digerir, fazemos escolhas baseadas no que está disponível e no que o grupo social valida como socialmente comestível ao longo do tempo. É só a partir dessas escolhas já realizadas que vamos selecionar nossas preferências.

Assim, gostar ou não de chocolate é uma questão que poderá estar presente para o brasileiro, mas a mesma dúvida não acontecerá se o alimento em questão for cachorro ou baleia. Da mesma forma, considerar algo como saudável ou não parte dessa mesma validação: provavelmente não haverá pesquisas sobre as propriedades nutricionais de algo que o grupo social não aceitará ingerir.

Comemos o que tem conexão com nossa cultura e valores

O ser humano precisa então comer para viver, mas não come qualquer coisa. O alimento, comestível biologicamente, precisa ser aceito socialmente pelo grupo, dentro do qual ganhará significados que vão além do seu “valor de uso”, ou dos nutrientes que ele oferece.

Assim, alguém do Espírito Santo não comerá coentro apenas pelo potencial de detox do fígado, goianos não comerão pequi só pela vitamina C, e gaúchos não beberão chimarrão porque é diurético: cada um desses grupos encontra nessas comidas conexões com suas culturas, suas crenças e representações.

A comida não será boa ou ruim por si só, mas reconhecida dessa ou daquela maneira a partir de um conjunto de valores culturais compartilhados. 

O que é certo ou saudável?

Assim, não existe o “certo” objetivo quando falamos de cultura, ainda que muitas vezes se caia na armadilha de interpretar o que é comum como o que é correto (Veja mais no podcast https://www.minestrone.com.br/podcast/comida-e-cultura/).

Para profissionais da área da alimentação, como cozinheiros e nutricionistas, o valor cultural e identitário da comida precisa ser sempre levado em consideração em primeiro lugar, antes mesmo do valor nutricional, já que hábitos alimentares são criados e fortalecidos ao longo do tempo e não mudarão apenas com base em informação ou recomendação.

A comida funciona como um processo comunicativo que pode ajudar a entender os significados dados às práticas compartilhadas por determinado grupo social, mostrando assim como esse funciona e como seus componentes se relacionam. 

Comida é identidade

Esse entendimento da construção da identidade é extremamente importante nos tempos atuais, em que há abundante contato intercultural e a mesma quantidade de intolerância frente a diferenças.

Respeitar a comida do “outro” como gostamos que se respeite a nossa, porque se trata de uma continuação de quem somos enquanto grupo, pode abrir espaço para uma reflexão sobre a diferença de uma perspectiva não violenta, permitindo maior entendimento da diversidade e facilitando a convivência cotidiana com a diferença.

Especial por:

Joana Pellerano – Doutora em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM-SP), mestre em Ciências Sociais (PUC-SP) e em Comunicação e Gastronomia (Universitat de Vic), bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UFES). É professora e pesquisadora da área de alimentação, além de co-autora do site de divulgação científica Comida na Cabeça (www.comidanacabeca.com).

Para saber mais:

MONTANARI, Massimo. Comida como cultura. São Paulo: Senac São Paulo, 2008.

PELLERANO, Joana A. “A gente carrega a comida com a gente”: Consumo alimentar como processo comunicativo na convivência intercultural do trabalho. 2018. Tese (Doutorado em Comunicação e Práticas de Consumo) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo, Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), São Paulo. Disponível em <https://tede2.espm.br/handle/tede/387>. Acesso em 9 mai. 2021.

_______________. Anomia e gastro-anomia: a comida industrializada e seu impacto nas escolhas alimentares contemporâneas. Ponto-e-Vírgula: Revista de Ciências Sociais, São Paulo, n. 15, 2014. Disponível em <https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/22578/16400>. Acesso em 9 mai. 2021.

POULAIN, Jean-Pierre. Sociologias da alimentação: Os comedores e o espaço social alimentar. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004.

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