A busca pelo controle e necessidade do cuidado, são um dos paradoxos contemporâneos. A nutrição do jeito que a conhecemos está pautada em um conhecimento técnico, hierárquico e permeado de tentativas de controle que visam convencer as pessoas a praticar um “estilo de vida saudável”.

Tenho certeza que desde a faculdade ou logo no início da prática clínica, você deve ter percebido que seus conhecimentos e habilidades não eram suficientes para alcançar o tal sucesso. Não se sinta só, porque o que vivenciamos é uma crise profunda nas abordagens prescritivas e distanciadas do que temos de melhor: nossa humanidade. 

A necessidade do cuidado e a nutrição

Agora, imagina uma prática clínica em que o Nutricionista promove uma relação de parceria, quase como uma dança; escuta com atenção suas histórias e não somente seu histórico de doenças; valoriza as subjetividades; valida suas dores e desejos; desperta em seu paciente potências até então não exploradas; contribui para o seu autoconhecimento e faz com que construa caminhos antes não imagináveis.

Parece muito distante? Isso é o que todos nós deveríamos ser capazes de fazer: cuidar verdadeiramente do indivíduo como um todo.

O controle e a necessidade do cuidado

Partindo de dois conceitos do filósofo Michel Foucault, controle de si e cuidado de si, é possível construir um paralelo com a ciência da Nutrição e a nossa prática clínica.

Fruto da minha dissertação de mestrado, escrevi esse artigo na tentativa de contribuir para reflexões e debates que nos ajudem a construir e praticar novas abordagens, estratégias, habilidades e competências para de fato promover saúde. 

O conceito do controle de si, refere-se a uma concepção de alimentação-saúde-doença negativa, pautada por uma lógica prescritiva, quantitativa, padronizada e uma visão fragmentada. Foucault descreve que o controle contribui para o estabelecimento de uma relação de poder que está sempre associado a alguma forma de saber.

Socialmente existem diversos dispositivos de poder e grande parte deles tem o corpo como alvo, uma forma de docilizar, adestrar os sujeitos e então controlar seus comportamentos.

A princípio isso pode soar como algo negativo, pesado ou baseado na coerção, entretanto, na prática isso funciona de modo sútil, positivo e sedutor – basta observarmos o culto ao corpo perfeito e tudo que as pessoas fazem voluntariamente para satisfazer essa “necessidade”.

Essa lógica também é observada na área da alimentação-nutrição. Veja que somos ensinados a consertar erros, resolver os problemas, definir horários, alimentos, controlar o peso e com isso retiramos das pessoas a agência delas sobre sua própria alimentação-saúde-vida.

O conceito do cuidado de si, por outro lado, nos ajuda a compreender que é na prática diária, no conhecimento de si e na autonomia que cada pessoa pode construir um caminho valioso em direção a práticas positivas em saúde sustentáveis, honrando sua história, seus valores, suas subjetividades e apoiando-se em seus conhecimentos prévios, habilidades e potências.

A relação do nutricionista

O nutricionista por sua vez, constrói junto e conduz o processo a fim de facilitar a promoção do cuidado. Portanto, um processo interativo baseado no acolhimento, na escuta ativa e no aconselhamento.

Quer refletir e embarcar em uma jornada de desconstrução para cuidar melhor das pessoas que você atende? Esse artigo fresquinho irá te ajudar a entender a diferença entre controle e cuidado na ciência da Nutrição e o que podemos já colocar em prática para nos tornarmos nutricionistas melhores e mais humanos. 

Especial por

Marcela Villela, nutricionista, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo.

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