Em post anterior sobre  Imagem Corporal e Comportamento Alimentar – Parte I  referi modelos teóricos (Dual Pathway Model e Tripartite Influence Model) utilizados para avaliar a relação hipotética causal entre distúrbios de imagem corporal (isto é, internalização dos ideais de corpo e insatisfação corporal) e alterações no comportamento alimentar, como o comer transtornado (1,2). Além disso,  também foi destacado a necessidade de uma abertura para que pacientes possam falar sobre suas inseguranças, preocupações com o corpo e com a aparência física.

Nesta Parte II destaco que os aspectos relevantes sobre como as preocupações com o corpo  podem afetar o comportamento alimentar, com foco no diálogo possível entre profissionais e seus clientes com intuito de (re)conhecer crenças disfuncionais e modular o comportamento alimentar.

Em um contexto sociocultural convencional é comum nos deparamos com diálogos sobre o corpo e a aparência física. É bastante frequente as pessoas conversarem com amigos próximos sobre aspectos negativos de sua aparência física ou sobre a aparência de outras pessoas. Na literatura, encontramos termos como fat talk ou negative body talk para descrever esses tipos de conversas (3,4). Estes tais diálogos aparecem no contexto clínico ou quando conversamos com nossos clientes em atendimento. A questão central que diferencia essas formas de diálogo é o foco/direcionamento da conversa.

Em conversas negativas sobre o corpo em um contexto sociocultural marcado pela preocupação com a aparência física, o que se observa é o frequente relato de insatisfação corporal marcado pela expressão de crenças disfuncionais sobre o corpo e, frequentemente, sobre a comida e alimentação. Não é raro que tais conversas possuam conteúdos como “dicas” comportamentais e estratégias para alterar a aparência física, numa clara tentativa de superar o desgosto profundo com o próprio corpo. O que a literatura aponta é que estas conversas resultam no reforço e internalização de crenças e comportamentos disfuncionais, como a prática de dietas restritivas ou mudanças profundas na relação das pessoas com sua alimentação (3,4).

Como mudar a imagem corporal na prática clínica?

Já no contexto clínico temos a possibilidade de alterar o foco dessas conversas. Para isso, podemos transformá-las em um momento de escuta ativa e empática, no intuito de compreender quais relações o paciente/cliente faz entre seu corpo, sua imagem corporal e seu comportamento alimentar (5). No campo de estudos do comportamento humano, a Psicologia é uma grande aliada. Não me refiro apenas ao psicólogo, que obviamente é um importante parceiro no campo da Saúde, mas ao conhecimento que advém desse campo de estudo (isto é, a Psicologia). Em especial, destaco as grandes contribuições dessa área para a compreensão do comportamento humano, desde Pavlov, Skinner e Bandura, a todo campo hoje mais estruturado da Psicologia Cognitiva e Comportamental.

Conhecimentos advindos dessas áreas nos apontam que os indivíduos possuem crenças sobre o mundo que os cerca e que essas são importantes na constituição de experiências vividas e na expressão comportamental.  Isso não se difere do que dos modelos hipotéticos apresentados na Parte I deste texto. Interessante observar que podemos modular essas crenças, auxiliando as pessoas na alteração de experiências vivenciais, o que possui a capacidade de gerar mudanças de comportamentos e sentimentos (6,7). Nesse ponto, resgato o papel dos distúrbios de imagem corporal sobre o comportamento alimentar.

Sobre as crenças

Sabendo da possibilidade de modular comportamentos por meio de alteração de crenças, temos a capacidade de auxiliar nossos pacientes/clientes a modificar seu comportamento alimentar e transformar sua relação com o corpo. Para além da identificação das crenças disfuncionais é necessário compreender a relação dessa e comportamentos automáticos. Atualmente muito me interessa a Teoria da Dissonância Cognitiva (6,7), uma das que aponta formas de trabalhar discrepâncias entre crenças consonantes e dissonantes, numa clara estratégia de modular comportamentos. Essa teoria vem sendo largamente utilizada em estudos de prevenção aos transtornos alimentares e distúrbios de imagem corporal (8).

Em suma é importante adicionar crenças ao repertório dos pacientes. Se existe crença em um estereótipo corporal, ou mesmo internalização de um corpo ideal magro, é necessário apresentar os riscos associados à busca por esse corpo ideal, indicar a ilusão por trás de um projeto de felicidade ao se atingir tal corpo e citar casos de insucesso e adoecimento de pessoas que buscam esse ideal.

Em relação à insatisfação corporal, é importante discutir a potencialidade e funcionalidade do corpo, seus aspectos positivos, e reconhecer outras potencialidades dele. Enfatizo que cito a internalização e a insatisfação corporal por considerar estas importantes variáveis sobre o comportamento alimentar.

Assim como no texto anterior destaco a importância de abordar, no sentido de conhecer, as preocupações dos pacientes/clientes em relação ao seu corpo e sua imagem corporal. Nesta segunda parte, alerto sobre a necessidade de aprofundar no estudo sobre o comportamento humano e nas estratégias disponíveis e passíveis de uso por nutricionista para alteração de crenças disfuncionais e, consequentemente, alteração no comportamento alimentar.

Autoria:

Série especial por Pedro Henrique Berbert de Carvalho (@phd.pedrocarvalho)

Profissional de Educação Física e Doutor em Psicologia -UFJF.

REFERÊNCIAS:
  1. Stive E, et al. The dual pathway model differentiates bulimics, subclinical bulimics, and controls: Testing the continuity hypothesis. Behaviour Therapy. 1996;27(4):531-49.
  2. Thompson JK, Heinberg LJ, Altabe MN, Tantleff-Dunn S. Exacting beauty: Theory,assessment and treatment of body image disturbance. Washington, DC: American Psychological Association; 1999.
  3. Lin L, Soby M. Is listening to fat talk the same as participating in fat talk?. Eating Disorders. 2017;25(2):165-72.
  4. Shannon A, Mills JS. Correlates, causes, and consequences of fat talk: A review. Body Image. 2015;15:158-72
  5. Alvarenga M, Figueiredo M, Timerman F, Antonaccio C. Nutrição Comportamental. São Paulo, Brasil: Manole; 2019.
  6. Harmon-Jones E, Judson M. An introduction to cognitive dissonance theory and an overview of current perspectives on the theory. In: Harmon-Jones E (Ed.), Cognitive Dissonance, Second Edition: Reexamining a Pivotal Theory in Psychology. Washington, DC: American Psychological Association; 2019.
  7. Harmon-Jones E, Harmon-Jones C. Cognitive dissonance theory after 50 years of development. Zeitschrift für Sozialpsychologie. 2007;38(1):7-16.
  8. Stice E, et al. Clinician-led, peer-led, and internet-delivered dissonance-based eating disorder prevention programs: Effectiveness of these delivery modalities through 4-year follow-up. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2020;88(5):481-94.

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