Se você escolheu caminhar entre as belezas que discutimos nessa série, bem-vindo ao clube dos nutricionistas apaixonados por uma prática clínica mais humana e gentil. O intuito não foi dar respostas prontas ou chegar em um destino, mas de (re)pensar nossa atuação. Aliás, o mais importante, para nós e também para quem atendemos não é o destino final, é estar no caminho em busca de.

Hoje eu gostaria de te oferecer alguns caminhos. Isso não quer dizer que são os únicos, ou que são os mais certos; são apenas opções que fazem sentido dentro dessa abordagem baseada no cuidado.

Muito provável que você já tenha estudado muitos dos conceitos e abordagens que apresento aqui. Entretanto, o convite é para que possamos ampliar o olhar. Nós não precisamos inventar a roda, digo isso pois temos no Brasil um modelo de saúde (SUS) que é elogiado e copiado por vários países; políticas públicas e instrumentos educativos incríveis; nosso maior desafio é colocar tudo isso em prática.

Não pense que é responsabilidade de outros ou assunto meramente político; nossa atuação é política. Seu trabalho diário pode incluir ou excluir princípios que reforçam o controle ou o cuidado das pessoas através da alimentação.

Como podemos cuidar mais e controlar menos? As respostas estão mais próximas do que imaginamos, veja só: a Política Nacional de Humanização (PNH) enfatiza que devemos cuidar de pessoas que adoecem, ao invés de focar em doenças; a estratégia nacional de aleitamento materno e alimentação complementar desenvolvida pelo Ministério da Saúde propõem uma concepção reflexiva e transformadora, totalmente centrada em princípios de Paulo Freire; a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) enfatiza a relação horizontal, a escuta acolhedora, o vínculo terapêutico e a interdisciplinaridade.

Palavras como integralidade, autonomia e uma prática livre de preconceitos estão no cerne de diversos documentos (inclusive no juramento oficial dos nutricionistas) que regem os profissionais de saúde.

Destaco nosso Guia Alimentar de uma riqueza incrível, base para diversas políticas públicas e que, ao contrário da proposta controladora, estabelece direções e opções para propiciar uma alimentação saudável (será que por esse motivo não damos a ele o devido destaque?). Ele é orientado por cinco princípios e propõe ideias como: alimentação é mais que a ingestão de nutrientes; alimentação adequada envolve hábitos socioculturais e zelo pelo meio ambiente; respeito às regiões, culturas tradicionais, sazonalidade; comensalidade; comer em ambientes adequados e com atenção; cozinhar mais; e acima de tudo autonomia, singularidade e subjetividade do ato de se alimentar.

Essas ideias te parecem familiares? Quando defendemos e estimulamos que estudantes e profissionais de nutrição tenham acesso às abordagens e técnicas mais amplas como o aconselhamento nutricional; a entrevista motivacional; o comer intuitivo; o mindful eating, o movimento Health at Every Size® (HEAS), e outras técnicas oriundas da psicologia, estamos incentivando essa ampliação do olhar para uma prática mais humana que está totalmente conectada à verdadeira promoção de saúde.

Sim queridos leitores, há muitas questões para serem aprimoradas. Ainda não temos o termo mindful eating, por exemplo, descrito no guia alimentar brasileiro (o que já é uma realidade no guia canadense), mas damos passos em direção a isso ao promover um comer mais consciente, em companhia, conectado aos sinais internos de fome e saciedade e descartando toda a mentalidade de dieta que rege a vida ‘moderna’.

Em meio a esse mundo transtornado, seria possível resgatar a credibilidade do nutricionista como um profissional do real cuidado? Desde de que mergulhei no mundo da ‘nutrição comportamental’ (termo que se refere ao Instituto, mas que é tão potente que os pares utilizam como se fosse uma área), eu sonhava com o dia que isso fosse uma disciplina obrigatória na graduação. Hoje, após muito caminhar, percebo que nós temos um poder surpreendente em cada atendimento, prescrição, aula ou qualquer modo de atuação. A ‘Nutrição Comportamental’ precisa ser incluída e aplicada em todos as disciplinas e campos, porque o que falamos e defendemos não tem a ver com uma área delimitada que beneficia alguns grupos ou tipos de pacientes, mas garante nosso compromisso com a vida humana e a centralidade que cada pessoa ocupa no processo de promoção de uma alimentação saudável e adequada.

Certamente a nutrição é uma das profissões do futuro, há milhares de pessoas que precisam do nosso trabalho. Entretanto, elas estão adoecendo mais com esse modelo prescritivo, punitivo, reduzido ao saber biológico; cansadas de serem controladas, tentar controlar e acabarem em processos extremos que debilitam a saúde física e mental.

O cenário apresenta novas demandas e com isso, novas oportunidades. A vida, assim como a saúde, se mostra dinâmica, complexa e orientada por valores, crenças e culturas singulares de cada indivíduo. A nutrição se eleva sensivelmente quando respeita essas subjetividades, diversidades e potências do ser humano.

Se me permite uma recomendação, eu diria: não limite seu campo de estudos; não limite seu atendimento à protocolos; não se limite. Abra-se, renove-se, redescubra o que é verdadeiramente a nutrição. E lembre-se, mais importante que saber é nunca perder a capacidade de aprender.

 

Série especial por Marcela Villela

Leave a Reply

× Como posso te ajudar?