O que a psicologia cognitivo-comportamental diz sobre o “sucesso” das dietas da moda?

No texto anterior falamos do dilema molar e molecular da recompensa imediata versus uma recompensa mais tardia no campo alimentar.

Os autores Herman & Polivy (2003, p.473) apresentam esse dilema comportamental de maneira brilhante em seu capítulo “A prática da dieta como exercício em Economia Comportamental”. “Economia?” Você me perguntará. Sim! O dilema apresentado aqui, comparando a gratificação imediata (visão molecular) e gratificação futura (visão molar), é parte de uma grande discussão nos estudos de decisão e escolha humanas: as escolhas intertemporais. Essas escolhas são avaliadas tanto no campo na psicologia cognitivo-comportamental como no campo da Economia Comportamental, ou em ambas ao mesmo tempo, o que faz bastante sentido. De maneira simplificada, a escolha intertemporal refere-se à probabilidade de escolhermos mais aquilo que nos traz mais gratificação imediata em comparação a uma gratificação adiada, o que também pode ser chamado de viés do presente. Esta discussão insere-se ainda nos estudos cognitivo-comportamentais e/ou econômicos sobre autocontrole versus impulsividade frente a decisões ligadas a gratificação (ou punição) presente e futura e variantes desse contexto em função da posição do indivíduo no tempo.

Voltando para nossa discussão das dietas, a gratificação abstrata e intangível que uma dieta oferece, traz para o indivíduo, na verdade, apenas uma culpa presente, que segundo autores Polivy & Hermannão está em nada ligada a melhorias de hábitos alimentares. Ainda pensando nas escolhas intertemporais, se pensarmos em gratificações presentes para o estabelecimento e manutenção de comportamentos alimentares, poderíamos pensar na importância de trazer ao presente, de maneira consciente, certas gratificações proporcionadas pela comida, questões já discutidas, por exemplo, pelas técnicas de meditação também aplicáveis à alimentação como o “Mindful-Eating” (Hendrickson KL, Rasmussen EB, 2017).

Veja que comportamento alimentar é coisa séria, e é preciso estudar muito e cada vez mais!

Esperamos que você tenha ficado interessado de ver que a alimentação e a nutrição podem conversar com diversas áreas de conhecimento, fato que na verdade parece ser mais razoável ao pensarmos em fenômenos complexos como o dos comportamentos alimentares e todo o processo de escolha que envolvem.

Referências[m1] [P2]

Herman, C. P. & Polivy, J. 2003 Dieting as an exercise in behavioral economics. In Time and decision: economic and psychological perspectives on intertemporal choice (eds G. F. Loewenstein, D. Read & R. F. Baumeister), pp. 459-489. New York, NY: Russell Sage Foundation;

Polivy, J. & Herman, C. P. 1992 Undieting: a program to help people stop dieting. Int. J. Eating Disord. 11, 261-268. (doi: 10.1002/1098-108X( 199204) 11:3 < 261:: AID-EAT2260110309 >3.0.CO;2-F);

Rachlin, H. A series of books in psychology. Judgment, decision, and choice: A cognitive/behavioral synthesis. New York, NY, US: W H Freeman/Times Books/ Henry Holt & Co. 1989;

Hendrickson KL, Rasmussen EB, 2017. Mindful eating reduces impulsive food choice in adolescents and adults. Health Psychol. 2017 Mar;36(3):226-235. doi: 10.1037/hea0000440. Epub 2016 Nov 3.

 

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