Força, foco e fé e a (má) alimentação

Esse texto é baseado no artigo “Força, foco e fé: a sociedade do desempenho e a (má) alimentação”, publicado em Julho de 2023 na Revista Saúde e Sociedade, disponível em: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/nznfY5W7ZzqXnRMKzXMWMym/

 

‘Ser a melhor versão de si mesmo’: precisamos falar sobre isso! O mundo ‘moderno’ nos impõe alguns ideais e valores como velocidade, produtividade e consumo, as quais regem a vida e, claro, impactam também a relação com o corpo e a comida. A expressão “força, foco e fé” sintetiza essa necessidade de estar o tempo todo engajado em algum projeto de melhoramento, seja na área da saúde, do trabalho ou de outras esferas.

Nessas tentativas de aprimoramento, vamos nos tornando nossos piores carrascos. Afinal, precisamos registrar que estamos em dia com o projeto “tá pago”. Curiosamente, vivemos com a sensação de estarmos sempre em dívida. Parece que não fazemos o suficiente, não sabemos o suficiente, ou até não pensamos de forma positiva o suficiente; em resumo: o melhor ainda não é bom, precisa ser perfeito…

Na saúde, esse ideal de perfeição começa pelo próprio conceito da OMS: “um completo bem-estar físico, mental, emocional e não somente a ausência de doenças” (WHO, 1946, p. 100). Eu te pergunto: quem hoje tem condições de afirmar categoricamente que está assim? Será que esse conceito utópico não estaria nos distanciando do cuidado com a saúde? Já que ele parece ser algo tão difícil de se conquistar e tem sido motivo de tantas frustrações, investimento de tempo, dinheiro. Nos parece que essa sociedade do desempenho, apesar dos esforços, caminha de forma acelerada rumo ao adoecimento psíquico, social e físico de grande parte da população.

Ao tratar o corpo como uma máquina que precisa ser aprimorada e reformada às pressas, aproximamo-nos da mentalidade de dieta, um ciclo que se retroalimenta, pois tem a premissa de que vamos curar nossas insatisfações com o corpo (e ilusoriamente com a vida) se engajarmos na ideia do controle. E aprisiona, pois, na esmagadora maioria dos casos, o controle excessivo acaba em descontrole.

Como diz Susie Orbach (2013), as meninas são criadas com a ideia de que seu corpo é uma coisa a ser construída e não a ser vivida”. Vivemos em função da produção e objetificação desse corpo idealizado que é uma lógica perversa e lucrativa para a sociedade que sempre vende uma “solução”.

Recebemos em nossos consultórios pessoas que estão em sofrimento, muitas porque não tem um corpo padrão ou ainda que próximas, não satisfeitas, desejam o aprimoramento. E esse aprimoramento baseia-se em um tempo-espaço que só existe na ilusão e na demanda moderna: precisa ser para ontem!

Aliás, tempo é algo precioso que não temos muito disponível (imagina tentar cozinhar). A busca por alimentos ultraprocessados e soluções rápidas preenche essa necessidade da vida que não para. Cheia de estímulos, as pessoas encontram-se distraídas o tempo todo: telas, barulhos, propagandas, informações… o que não falta é motivo para se distanciar cada vez mais desse corpo que emite sinais de socorro.

Resultados eficazes e rápidos são a premissa para adotar uma nova dieta ou qualquer prática alimentar e corporal. Muitas vezes, colocando a população em risco em uma busca excessiva por procedimentos e cirurgias com fins estéticos e por práticas baseadas em pseudociências. A cobrança excessiva caminha lado a lado com a autocrítica, o que afeta diretamente a saúde mental das pessoas, em especial, na relação com o corpo e com a comida. O pior de tudo, é que essas pessoas ainda se culpabilizam – e são culpabilizadas pelos profissionais de saúde – pelo adoecimento ou não resultado. Prática que é estimulada por um Estado que se exime da responsabilidade de promover melhores condições e acesso aos serviços que podem contribuir para qualidade de vida.

Nutricionistas, por sua vez, se veem enclausurados em um padrão estético para estarem “aptos” a exercer a profissão. Essa é uma credencial que os coloca mais próximos das demandas culturais e de mercado. Além disso, somos treinados desde a faculdade a ter uma visão míope sobre a alimentação, focada em nutrientes e patologias, esvaziamos os sentimentos mais subjetivos da comida, da saúde e da doença. Isso torna nossa prática alimentar voltada para a medicalização, prova disso é quanto o consumimos suplementos, colocando o Brasil em 3° lugar no mundo.

Pautados nessa lógica da velocidade e do resultado, o profissional se vê diante de uma demanda que é suprida com regras rígidas e comportamentos revolucionários, mas que como são desconectados da realidade, dificilmente serão sustentados a longo prazo.

Portanto o combo atual é: população medicalizada; alimentação oscilando entre dietas restritivas e excessos; saúde mental prejudicada por padrões estéticos irreais; mídia nos bombardeando com mensagens contraditórias; ambiente obesogênico; indústrias investindo pesado em lobbys; cultura que valoriza a juventude, a magreza e a velocidade. Você acha mesmo que nós profissionais passaríamos imunes a tudo isso?

Mesmo para vocês que já estão em busca desse caminho da prática de uma abordagem comportamental da nutrição, é preciso se lembrar constantemente que estamos inseridos nessa sociedade do desempenho e do controle. Muitas vezes cairemos na tentação de responder às expectativas, sucumbir ao reflexo de consertar as coisas, reforçando a lógica de que corpos são máquinas e não um instrumento de vida que carrega consigo tantas particularidades e subjetividades. Precisamos buscar constantemente o fortalecimento dessa comunidade de nutricionistas que estão atentos e determinados a construir um cenário diferente. É essencial que possamos promover espaços para trocas, parcerias, discussões, supervisão de casos e, principalmente, buscar conhecimentos para além da bolha da nutrição. Afinal, comer é um ato político. Ser nutricionista também! 

 

Escrito por:

Fernanda Timerman  -Nutricionista, aprimorada em transtornos alimentares pelo Ambulim (IPq-FMUSP), “Master of Education by Research” pela Sydney University – Austrália, validado para mestrado pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

 

Marcela Villela  Nutricionista, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências:

VILLELA, M.C.E; TIMERMAN, F. Força, foco e fé: a sociedade do desempenho e a (má) alimentação. Saude soc. 32 (2), 2023. https://doi.org/10.1590/S0104-12902023210771pt

WHO – World Health Organization. Official Records. International Health Conference. Geneva, 1946. n. 2.

ORBACH, S. ‘I’m Always perplexed as to how heterosexuality happens…’. Entrevista cedida à Cristina Odone. The Telegraph, London, 25 Apr. 2013. Disponível em: <Disponível em: https://www.telegraph.co.uk/women/sex/10017981/Im-always-perplexed-as-to-how-heterosexuality-happens….html >. Acesso em: 4 ago. 2021.

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