A BALEIA e a representatividade da obesidade no cinema

Em setembro de 2022, o nome do ator Brendan Fraser foi um dos grandes destaques dos portais de notícias de cinema por ter sido aplaudido de pé por seis minutos seguidos, após a exibição do filme “A Baleia” no Festival de Cinema de Veneza.

O longa, dirigido pelo polêmico cineasta Darren Aronofsky e agora com 3 indicações ao Oscar, finalmente chegou ao circuito comercial brasileiro e tem movimentado tanto jornalistas quanto profissionais de saúde pelos seus temas e representações.

 

“A Baleia” errou a mão na representatividade da obesidade no cinema?

Antes mesmo de entrar nos detalhes da trama que tem gerado polêmica, é importante ressaltar que a razão pela qual o longa ganhou destaque, em primeiro lugar, foi a atuação de um ator relativamente “sumido” das telonas – não foi o roteiro, muito menos a direção do filme.

Este fato se confirma com as diversas premiações e a indicação ao Oscar para Fraser e não para Aronofsky. Todo o reconhecimento do filme está, então, concentrado na capacidade do ator em transmitir emoção – sem nenhum julgamento do que ele estava representando (afinal quantos atores e atrizes já foram premiados por papéis que representavam os maiores horrores da sociedade?).

Ainda assim, o público final de um filme não faz esta distinção. A associação do que é levado para a tela com a realidade não é nenhuma novidade, de tal modo que desde a sua criação o cinema foi usado como ferramenta de propaganda política e moral, como diversos estudiosos apontam1, 2, 3, 4.

Nos últimos anos, as redes sociais escancararam debates sobre representatividade no cinema, focando principalmente no potencial de um filme (ou um conjunto de filmes) de formar opiniões sobre pessoas, condições e lugares.

Entretanto em suas colocações, os questionadores das redes sociais não enxergam o cinema como uma forma de arte inserida nos valores da sociedade que, antes mesmo de influenciá-los, refletem o que já foi estabelecido.

 

As representações da obesidade

A premissa fica muito mais interessante quando resgatamos o trabalho5 de um pesquisador sobre os primórdios da sétima arte e as representações da obesidade que sugere que os valores depreciativos às pessoas gordas começaram como uma forma de representação de revoltas populares contra as pessoas mais ricas (então representadas como gordas) – o que acaba se encaixando perfeitamente com o momento histórico da criação do cinema.

E tão recente quanto o cinema (olhando em perspectiva histórica), são os avanços em saúde e os estudos que constataram que a obesidade é precursora de adversidades para a saúde, bem como um problema de saúde pública onde não cabe a responsabilização do indivíduo por sua condição.

Assim, responsabilizar os cineastas pela representação X ou Y de uma pessoa com obesidade em uma obra de ficção é, no mínimo, uma visão restrita do todo – ainda mais com tantos problemas mais graves de estigma com obesidade, no mundo real, por médicos, nutricionistas e outros profissionais.

Mesmo que, na prática, o cinema possa ser um dos balizadores morais da sociedade, esta não deveria ser a sua função. Se realmente este fosse o real propósito do cinema, não deveriam produzir filmes sobre bandidos, psicopatas e nem mesmo incentivar o consumo de drogas e outros comportamentos de risco.

 

Sobre o filme “A Baleia”

Apesar do que reverberou após o seu lançamento, “A Baleia” nada mais é do que um filme dramático cujo o protagonista tem uma doença grave.

A doença, na verdade, é apenas um plano de fundo para uma história sobre amor, ódio e redenção – e não sobre obesidade.

As dificuldades cotidianas do protagonista, seus comportamentos e a vergonha que ele tem da própria condição são apenas sobre ele e em nenhum momento o longa tem a pretensão de representar todas as pessoas com obesidade. Tal pensamento é ainda mais estigmatizador do que qualquer cena de “A Baleia” – e abriria um precedente enorme de limitação para o cinema como arte.

É verdade que o título do filme faz um trocadilho desrespeitoso e inaceitável nos dias de hoje, porém há um sentido para o nome “baleia” na trama que faz um paralelo da relação entre uma filha abandonada e seu pai e a relação do Capitão Ahab com a baleia Moby Dick, indo, então, além da condição física do protagonista.

Há de se considerar ainda os aspectos de publicidade do longa, que no fim das contas é um produto e muito provavelmente não estaria sendo tão debatido (e consumido) se tivesse recebido outro nome.

Assim como as outras obras de Darren Aronofsky, “A Baleia” é um filme denso e extremamente triste (há quem goste) que encontrará a sua importância muito mais no âmbito do cinema do que em debates sobre saúde – e diferente de franquias de sucesso que são constantemente relançadas e possuem diversas linhas de produtos, é pouco provável que o longa, sozinho, tenha a capacidade de fortalecer estigmas com a obesidade, mais do que muitos médicos e nutricionistas já fazem em sua atividade cotidiana.

 

FELIPE-DAUNEspecial por Felipe Daun, nutricionista – que aqui se coloca também como um entusiasta de cinema.

 

SOBRE O AUTOR
Nutricionista, mestre e doutorando pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Pesquisador na área de comunicação em saúde e comunicação na internet. Parceiro do Instituto Nutrição Comportamental.

 

 

REFERÊNCIAS

  1. Matthes J, Naderer B. Sugary, fatty, and prominent: food and beverage appearances in children’s movies from 1991 to 2015. Pediatr Obes. 2019 Apr;14(4):e12488. doi: 10.1111/ijpo.12488.
  2. Howard JB, Skinner AC, Ravanbakht SN, Brown JD, Perrin AJ, Steiner MJ, Perrin EM. Obesogenic Behavior and Weight-Based Stigma in Popular Children’s Movies, 2012 to 2015. 2017 Dec;140(6):e20172126. doi: 10.1542/peds.2017-2126. PMID: 29158229; PMCID: PMC5703773.
  3. Rebecca M. Puhl, Joerg Luedicke & Chelsea A. Heuer (2013) The Stigmatizing Effect of Visual Media Portrayals of Obese Persons on Public Attitudes: Does Race or Gender Matter?, Journal of Health Communication, 18:7, 805-826, DOI: 10.1080/10810730.2012.757393
  4. Adami GF. Harry Potter and obesity. Obes Surg ; 12(2): 298, 2002 Apr.
  5. Santolin CB. História da obesidade: a filmografia de Georges Méliès. Motrivivência. 2021 Mar; v. 33 n. 64. doi: 10.5007/2175-8042.2021e77724.

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