Porque é necessário falar de ética de novo e sempre!

Em nosso 8º congresso de Nutrição Comportamental, realizado recentemente, falamos da publicação do recendo de um “novo juramento para profissionais da saúde no antropoceno”1 – veja aqui.

No evento, a discussão foi sobre a abordagem Nutrição Comportamental no contexto da saúde coletiva, porque sim, ela pode e deve ser usada e sim, se preocupa e se alinha com questões públicas, políticas, sociais, econômicas e culturais.

Lembramos ali também, o que é de verdade ter uma postura ética, que não é simplesmente obedecer o código de ética do nutricionista, pois devemos fazer isso por questões legais. A verdadeira ética vai além!

 

Ética ampliada e foco em “não causar dano”

Ética é um tema da filosofia, da forma de tratamento dos seres e, a bioética, do tratamento da vida em seus amplos aspectos2.

A bioética tem dois princípios fundamentais2:

  1. Princípio da beneficência: uma ação ética deve provocar o maior benefício ao maior número de pessoas, além de minimizar o dano.
  2. Princípio da não maleficência: nunca o paciente (ou animal) pode ser prejudicado. O que se relaciona ao juramento hipocrático de não causar dano.

Portanto, nossas condutas como nutricionistas devem visar a saúde dos pacientes, mas é preciso sair de um raciocínio “se não fizer bem ou funcionar, mal não vai fazer”.

É muito difícil que uma conduta nutricional possa matar alguém, mas pode causar MUITO dano.

Isso é especialmente verdade no contexto da obesidade, dos transtornos alimentares, das questões de imagem corporal e comportamento alimentar.3.4

A bioética propõe ainda que a prática clínica tenha como princípio a justiça e a autonomia, entendendo que as pessoas são capazes de decidirem suas escolhas e, portanto, devem ser tratados com respeito sobre suas decisões.

Sendo assim, nosso conceito de atuação ética deve, nesse sentido, ir além do que se “pode ou não” fazer na prática profissional.

Segundo Patterson e Eisenberg5 a “prática ética é aquela que proporciona, com interesse e esforço consciencioso, um serviço de ajuda para o qual se foi preparado adequadamente”.

Você foi adequadamente preparado para o quê? Esculpir corpos ou “meter o shape”? Para ser emagrecedor?

 

Por que falar de ética de novo?

Fizemos um post provocativo em formato de reels recentemente, usando como base vídeos da jornalista e crítica de cinema Isabella Boscov, os quais ganharam popularidade na internet justamente por serem utilizados em vários contextos e neste caso foram encaixados na atuação do nutricionista.

Todos que quiseram entender a provocação e os tópicos, entenderam completamente, mas chama atenção o número de pessoas “indignadas” com a colocação sobre nutricionista posar de biquíni.

Entre diversos comentários, um deles se destaca por sintetizar o centro do problema ético:

“(…) poder mostrar o poder da Nutrição no seu próprio corpo, inspirar outras pessoas. Eu posto foto de biquíni e estudo nutrição, pra continuar postando e mostrar como a minha dieta é ótima, me contratem!”

Qualquer pessoa pode postar fotos do que quiser e como quiser, é óbvio! Mas desde que no seu perfil pessoal, que não seja o mesmo utilizado para a prática da atividade profissional do nutricionista. Atividade que nas redes sociais inclui a divulgação de informações sobre alimentação e saúde e a captação de potenciais clientes/pacientes.

Da mesma forma que a atuação do nutricionista está condicionada ao pagamento de uma anuidade ao conselho de classe, também está condicionada ao respeito ao “Código de Ética e de Conduta do Nutricionista”, o qual muitos parecem desconhecer – em especial o Art. 58 – quando atribuem ao próprio corpo a sua “técnica” ou “protocolo especial” com a intenção de vender um resultado para ser contratado.

 

Art. 58 É vedado ao nutricionista, mesmo com autorização concedida por escrito, divulgar imagem corporal de si ou de terceiros, atribuindo resultados a produtos, equipamentos, técnicas, protocolos, pois podem não apresentar o mesmo resultado para todos e oferecer risco à saúde.

Se ainda temos profissionais com dificuldade de entender o dano que isto pode causar, temos ainda muito o que falar! Por isso falar de ética de novo, repetidas vezes, mais e mais.

 

  1. Wabnitz KJ, Gabrysch S, Guinto R, Haines A, Herrmann M, Howard C, … & Redvers N. (2020). A pledge for planetary health to unite health professionals in the Anthropocene. The Lancet396(10261), 1471-1473.
  2. Beauchamp TL, Childress JF. Principles of Biomedical Ethics. New York: OUP, 1994:189.
  3. O’Dea J. A. (2005). Prevention of child obesity: ‘First, do no harm’. Health education research20(2), 259-265.
  4. O’Dea J. (2000). School-based interventions to prevent eating problems: First do no harm. Eating Disorders8(2), 123-130.
  5. Patterson LE, Eisenberg S. O processo de aconselhamento. 4ª Ed. Martins Fontes, 2013.

 

escrito por Nutrição Comportamental

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