A Nutrição Comportamental mudou a minha relação com a nutrição e vêm transformando a atuação do nutricionista.

Desde muito pequena fui rotulada “grandona” e quando comparada com minha irmã que era magrinha, era também chamada de gordinha.

Eu também era chamada de linda, mas o “gordinha” não era algo que eu escutava em contextos positivos. Também escutava que comia muito e lembro bem de comentários e julgamentos sobre a qualidade e quantidade do que comia.

Como eu era uma criança inserida em um mundo onde as pessoas falavam e comentavam naturalmente e rotineiramente sobre “comer pouco”, comecei a dar muita importância ao comer e a resistir ser uma menina gordinha e “grandona”.

Me preenchi de uma sensação de não ser boa o suficiente se comesse o que meu corpo queria e pedia. E assim, embarquei no mundo das dietas loucas aos 9 anos de idade. Passei por cápsulas de ervas para emagrecer, vigilantes do peso, dietas de gavetas de endócrinos, medicações, shakes, diuréticos e laxantes, episódios de indução de vômitos, exercícios em excesso, dietas super restritivas e assim foi como eu vivi uma guerra com meu corpo e a comida por 25 anos.

 

Minha trajetória na Nutrição começou pela busca por paz e respostas

Uma busca sobre como eu poderia me relacionar com a comida de uma maneira que fosse menos sofrida, no caso, entender o que realmente acontece com a comida quando ela entra no nosso corpo e como controlar o ganho de peso, melhor dizendo, como ser magra para sempre.

E assim embarquei na faculdade de nutrição no Brasil e alguns anos depois, recomecei nos Estados Unidos. O interessante foi ver que os anos de faculdade de Nutrição, no Brasil e nos Estados Unidos, foi o período no qual eu mais desenvolvi comportamentos relacionados ao comer transtornado.

Até porque a mensagem era: “Nutricionista tem que ser magra para ser boa, para provar que pode ajudar a pessoa a ser saudável e magra”. E essa mensagem era e ainda é imposta por estudantes de nutrição, muitos professores e a sociedade em geral.

Me formei em Nutrição em 2013 pela Universidade Mount Mary, nos Estados Unidos. E aprendi muito bem, a ser uma “agente emagrecedora” de pessoas.

Também aprendi todas as técnicas para emagrecer meu corpo, só não tinha aprendido o quanto isso intoxicava minha saúde mental, minha saúde física e minha vida em geral.

Por muitas vezes, me sentia hipócrita ao prescrever uma dieta, porque eu odiava viver uma vida de privações para receber validação externa. Procurava fora de mim a resposta sobre como eu estava. E isso era um tormento, uma prisão, reflexo de uma pessoa e nutricionista perdida como ela mesma.

Até me sentia confiante ao passar um plano alimentar de qualidade, mas detestava passar as quantidades. Não tinha congruência. Como eu vou dar algo à alguém que eu mesma não suporto seguir?

 

O Comer Intuitivo e o início da minha mudança

Dois anos depois de formada, já mãe da minha primeira filha, ainda com questões pessoais difíceis com meu corpo, me vi procurando por mais uma maneira de fazer uma nova dieta.

Então, fui à uma das minhas sessões favoritas da livraria Barnes & Noble, Health and Nutrition, e vi o livro do Comer Intuitivo da Evelyn Tribole e da Elyse Resch. Comprei, li e entrei em encantamento!

Duas nutricionistas/dietitians falando sobre viver uma vida saudável sem dietas! Foi a partir daí que comecei a testar comigo o processo de comer intuitivamente.

Procurei ajuda profissional de algumas nutricionistas que trabalhavam com o Comer Intuitivo para me guiarem na minha jornada pessoal. Já não tinha mais forças para trabalhar em algo que drenava tanto minha vida pessoal – a guerra que vivia com meu corpo e a comida.

Comecei a conhecer profissionais que trabalhavam com comer transtornado e comer intuitivo no Brasil, e foi quando o nome da Marle Alvarenga apareceu na minha busca. E não por acaso, em uma das minhas vindas ao Brasil, eu tive a oportunidade de assistir a uma palestra da Marle Alvarenga, em Fortaleza, sobre a nutrição comportamental.

Já estava me certificando em Comer Intuitivo nos Estados Unidos com a Evelyn Tribole e em Mindful Eating pelo MB-EAT.

Também comecei a ser guiada e mentorada pela Dra. Marle Alvarenga. Consequentemente, cursei a Capacitação da Nutrição Comportamental. E continuo até hoje buscando conhecimento em diversos lugares do mundo sobre a ciência do comportamento alimentar.

 

A Nutrição Comportamental transformou a minha atuação

Eu encontrei na abordagem da nutrição comportamental um pacote riquíssimo de conhecimento e recursos que englobam técnicas e ferramentas de vários estudiosos do comportamento alimentar como body kindness, comer intuitivo, entrevista motivacional, comer com atenção plena, terapia cognitiva comportamental, competências alimentares e aconselhamento nutricional. Tudo isso eu trabalhei e ainda trabalho em mim, e hoje, posso afirmar, que eu me curei de um comer transtornado que vivi por 25 anos.

Atualmente, eu atendo na área clínica como tele dietitian, nos Estados Unidos, com a verdade que eu vivo, acredito e eu continuo colocando em prática todos os dias, é uma cura diária.

Adquirir essa base de conhecimento da nutrição comportamental enriqueceu e ainda enriquece muito a minha atuação no consultório.

Hoje eu não sou mais uma “profissional-emagrecedora”. Mas sim, uma nutricionista que tem muita saúde mesmo não sendo magra, que tem uma relação de muita paz com a comida e com seu corpo.

Sou uma profissional de saúde que promove saúde para todos os tipos de corpos e atentando para os desafios psicológicos de mudar os hábitos alimentares e crenças limitantes sobre o nosso corpo e nosso valor como pessoa. E espero, de coração, que mais profissionais de saúde possam encontrar em si essa tranquilidade para que possamos ajudar nossos pacientes a encontrarem essa paz também.

Existe saúde em todos os tamanhos de corpos.
Não somos todos iguais, nem devemos ser.
Só precisamos respeitar e honrar a diversidade em nossa sociedade.

Mariana Eisenberg, RDN
Registered Dietitian and Nutritionist
@nutrimarianaeisenberg

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