As novas regras de rotulagem de alimentos podem mudar o comportamento alimentar da população?

Em outubro de 2020, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou uma nova norma1 para a rotulagem de alimentos embalados.

O objetivo da mudança é trazer mais clareza para as informações presentes no rótulo para ajudar o consumidor a fazer escolhas alimentares mais conscientes.

modelo de rotulagem dos alimentos seguindo as novas regras da ANVISA
Nesta nova medida, o grande destaque é a inclusão obrigatória de alertas na rotulagem frontal.

Com isso, a proposta da ANVISA é esclarecer ao consumidor sobre o alto conteúdo de “nutrientes relevantes para a saúde”:
– sódio
– gordura saturada
– açúcar adicionado (sabemos que não se trata exatamente de um nutriente, mas é como está indicado nos comunicados oficiais)

A grande questão é: será que as novas regras de rotulagem podem mudar o comportamento alimentar da população?

Como fica a nova Rotulagem de Alimentos?

A rotulagem frontal não é uma novidade para os brasileiros. Várias marcas já adotam um modelo que destaca a comparação entre as quantidades de energia e nutrientes com as recomendações diárias médias – similar ao formato da clássica tabela nutricional.

Com a nova medida, os alertas de “nutrientes relevantes para a saúde” ganham regras próprias para definir o que será considerado “alto” ou não.

Desta forma deverão receber o alerta os alimentos que possuírem 15% ou mais de açúcar adicionado, 6% ou mais de gordura saturada e 0,6% de sódio (caso seja um alimento liquido, os limites são cortados pela metade: 7,5%, 3%, 0,3%, respectivamente).

Suplementos não entram na nova regra de Rotulagem de Alimentos

A resolução conta com uma lista de alimentos em que sua aplicação é vetada, dentre eles suplementos e alimentos para controle de peso.

Considerando que a intenção da ANVISA é fazer com que o consumidor tenha escolhas mais conscientes, por que excluir suplementos alimentares e alimentos para controle de peso?

De acordo com as novas regras, algumas marcas de “Whey Protein” deveriam adicionar um alerta de “alto em gordura saturada”, informação que não parece interessante para os consumidores do produto, que em geral são frequentadores de academia.

O mesmo vale para algumas marcas de “shakes de emagrecimento” que teriam que adicionar um alerta de “alto em sódio”, o que certamente afastaria aqueles que buscam “emagrecer” e um “estilo de vida saudável”.

Vale ainda apontar que estabelecer percentuais limites sem considerar o consumo habitual do produto, abre espaço para um consumo exagerado com a justificativa da ausência de algum alerta. Qualquer nutricionista já escutou de um paciente, ou mesmo familiar, que “tal alimento era ‘light’ e por isso ele poderia comer sem restrição”.

Então, será que a nova rotulagem dará espaço para um novo discurso de “este alimento não é alto em sódio ou gordura, posso comer a vontade”?

E como ficam os alimentos ultra processados?

Esta conversa se torna mais interessante quando olhamos para o rótulo dos populares salgadinhos de milho e também batatas fritas prontas para o consumo. Mesmo sendo clássicos exemplos de “alimentos ultra processados” e frequentemente “demonizados” por profissionais da saúde, a grande maioria não irá receber nenhum tipo de alerta em seu rótulo frontal.

Esses detalhes evidenciam que uma abordagem focada em nutrientes pode ser equivocada (como já diz o conceito de nutricionismo2), mesmo com a melhor das intenções.

Oito anos após a sua publicação, o Guia Alimentar para a População Brasileira3 ainda se destaca por ser centrado na alimentação e não em nutrientes, com a distribuição de diferentes recomendações para diferentes tipos de alimento, prezando por um maior consumo de frutas e hortaliças e um menor consumo de alimentos ultra processados.

 

Estudos sobre a nova rotulagem

A rotulagem frontal foi o tema de uma interessante revisão4, publicada em uma respeitada revista acadêmica em 2020, indicando que até então, não havia dados consistentes que mostrassem os benefícios dos diferentes formatos de informação nutricional na frente de um produto.

Temple (2020) apontou que tais medidas tendem a ajudar as pessoas a distinguirem o que é “mais saudável do que é menos saudável”, segundo os critérios de quem elaborou cada formato de rotulagem, porém a falta de padronização nos estudos impedia uma comparação sistematizada.

Além disso, a grande maioria dos estudos foram realizados em ambientes controlados para identificar a capacidade de interpretação de novos formatos de rotulagem e não necessariamente a escolha pelo alimento X ou pelo alimento Y.

Já os estudos que tinham por objetivo avaliar a intenção de compra, possuíam diversos vieses de informação. Eles também foram realizados em ambientes controlados de compras simuladas feitas por um computador, e mesmo entre esses, os resultados encontrados foram contrastantes.

Entre os poucos estudos realizados em supermercados reais, o impacto da rotulagem frontal na escolha de alimentos embalados foi extremamente baixo. Em geral, mudanças na embalagem apresentam um impacto de compra por um curto período, até as pessoas se acostumarem com a novidade e passarem a ignorá-la4.

Mas mesmo entre vieses e resultados pouco promissores, o modelo de alertas a ser implantado no Brasil, parece ser capaz de causar impressão em quem o vê. Isso devido a associação dos nutrientes destacados com doenças crônicas não transmissíveis, quando comparado a outros formatos de rotulagem frontal.

A nova rotulagem e o comportamento alimentar

Será que é uma boa opção para a relação das pessoas com a comida ter este tipo de associação em uma embalagem de alimento?

É claro que estamos falando de uma medida de âmbito nacional, querendo acreditar que foi pensada para bem de um coletivo, mas ainda assim quantos tiros podem sair pela culatra no âmbito individual?

No final das contas, temos aqui mais perguntas e reflexões do que respostas. Mas a verdade é que é ainda muito cedo para dizer o quanto estas novas regras de rotulagem dos alimentos irão impactar e mudar o comportamento alimentar da população brasileira de forma geral.

Infelizmente na nossa realidade, pessoas ainda passam fome e não sabem ler e interpretar textos – o que nos faz olhar com cautela e desconfiança para este tipo de medida.

E como estamos falando de alimentação, cabe a nós nutricionistas, nos informar a fundo com um olhar crítico para termos uma posição profissional e não menos importante para sanar dúvidas daqueles que nos questionarão.

 

REFERÊNCIAS

  1. AGENCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução de Diretoria Colegiada – RDC nº 429, 8 de outubro de 2020. Disponível em:< http://antigo.anvisa.gov.br/documents/10181/3882585/RDC_429_2020_.pdf/9dc15f3a-db4c-4d3f-90d8-ef4b80537380 > Acessado em: 16 fev. 22.
  2. SCRINIS G. Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional. São Paulo: Elefante Editora, 2021.
  3. BRASIL (Ministério da Saúde). Guia Alimentar para a População Brasileira. 2a. ed. Brasília (DF); 2014.
  4. Temple NJ. Front-of-package food labels: A narrative review. 2020;144:104485. doi:10.1016/j.appet.2019.104485

Especial por Felipe Daun.

Felipe DaunSOBRE O AUTOR:
Nutricionista, mestre e doutorando pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Pesquisador na área de comunicação em saúde e comunicação na internet, responsável pelo desenvolvimento e coordenação de programas de educação em saúde. Possuí experiência na capacitação graduandos em nutrição e nutricionistas em comunicação, com reconhecimento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Parceiro do Instituto Nutrição Comportamental.

 

Leave a Reply

×

Powered by WhatsApp Chat

× Como posso te ajudar?