Food Studies – Uma experiência única e ampla! O Dickinson College está situado em Carlisle, na Pennsylvania, e tem 2.500 estudantes. Em  Maio de 2021, 8 pessoas receberam o certificado de Food Studies (estudos sobre a comida) e eu fui uma delas. Esse certificado pode ser adquirido por qualquer estudante universitário da Dickinson que já declarou a sua área de estudo principal, no meu caso, Italian Studies (língua e cultura da Itália), mas que deseja explorar e se aprofundar no estudo sobre comida como parte integral do seu bacharelado. Clique aqui para uma lista de instituições com vários níveis de cursos de Food Studies ao redor do mundo, uma delas é a Universidade de Ciência Gastronômica de Pollenzo, no norte da Itália.

Food Studies – O que se estuda e trabalha

  Os cursos principais deste estudo na Dickinson College revelam uma abordagem multidisciplinar usada para entender melhor conexões complexas ligadas a alimentos, e a ajudar estudantes a avaliar o papel dos alimentos em um contexto pessoal, familiar, social, econômico, histórico e cultural. Com um olho crítico nas inter relações da produção, aquisição e consumo de alimentos, fui desafiada a me engajar em pesquisa acadêmica mas com um foco experiencial. Durante o meu aprendizado, trabalhei com fazendeiros, biólogos, artesãos, redes de supermercados, sociólogos, ambientalistas, chefs, historiadores, imigrantes trabalhadores, todos participantes do sistema alimentício com todas as suas complexidades.

Analisei filmes como Bento Harassment, Babette’s Feast que são focados em gastronomia e filmes que revelam outros aspectos alimentares como problemas sistemáticos apresentados no Food, Inc. e problemas raciais exibidos em Soul Food Junkies. Trabalhei na fazenda da faculdade e aprendi a fazer várias compotas para armazenar para uso no inverno, seus produtos agrícolas orgânicos frescos do verão. Analisei aspectos de um estudo sobre a insegurança alimentar de indivíduos em área geográfica local vizinha e voluntariei em um distribuidor de alimentos para pessoas de renda baixa, ajudando também na sua cozinha comunitária. Fiz entrevistas, cozinhei e comi com chefs renomados como Mike Solomonov do restaurante israelita Zahav, um lugar super badalado na cidade da Philadelphia, e Shannon Hayes, proprietária do ‘farm to table café’ chamado Sap Bush Hollow na cidade de West Fulton, NY. 

Food Studies – Projetos e oportunidades

Desenvolvi projetos multiculturais e tive muitas oportunidades de curtir meus interesses nesse campo, sempre tentando entender mais profundamente as conexões alimentícias do mundo afora. Pude praticar habilidades pessoais novas e teorizar a respeito de soluções para problemas interconectados com comida. Um trabalho que fiz no início do meu estudo, resultou em cartas de protesto e de esclarecimento a políticos e líderes comunitários da minha própria vizinhança, indicando a importância da conscientização dos moradores e das autoridades municipais, em relação a diversidade das plantas dos jardins no município. Pesquisando sobre certas condições locais, aprendi que existe um código de construção e paisagismo que domina e limita as opções dos tipos de árvores que podem ser usadas na vizinhança. Mas infelizmente, essas restrições têm prejudicado drasticamente o balanço ecológico da área. 

Animais selvagens que residiam aqui antes de nós moradores, agora não têm as plantas nativas como fonte de seu alimento, e espécies de pássaros que migram no inverno não voltam mais na primavera. Insetos e novas pestes que eram controlados naturalmente pela cadeia alimentar, se multiplicaram de tal forma que comem vorazmente as plantações dos nossos fazendeiros locais e as plantas dos nossos jardins. Devido a essa situação alarmante, o uso de pesticidas aumenta muito e a alta concentração de nitrogênio e agrotóxicos contaminam o solo, os córregos, os rios e os mares onde estes se desembocam. Essa cadeia de resultados negativos para o meio ambiente e para a produção agrícola começa com uma política local que determina uma prática ostensiva prejudicial mas que pode ser mudada e revertida.

  Outro trabalho que fiz envolveu pratos tradicionais e receitas de família. Examinei receitas regionais que se transformaram em práticas alimentares que atravessaram tempo e espaço, e que apenas comecei a desenrolar mistérios das suas origens. Um dos meus projetos foi vinculado especificamente com a tradição do doce siciliano, focando na experiência de dois “pasticceri”: Salvo Scollo do Café La Bruna, uma doceria local tradicional em Avola; e Corrado Assenza do Café Sicília, uma doceria mundialmente renomada no meio gastronômico e localizada em Noto (conheça mais sobre a história do incrível Corrado na série da Netflix “Chef´s Table” Temporada 4, episódio 2). Os dois trabalham nas suas cidades natais, localizadas na ponta sudeste da região da Sicília onde suas famílias vivem há séculos. Essa característica de permanecer no lugar de origem é central para entender a fonte poderosa do orgulho em seus produtos alimentícios e nas tradições fortes sicilianas. Ver tudo isso de perto e interagir com as pessoas diretamente, foi um privilégio e uma forma inesquecível de aprofundar meu conhecimento.

O estudo envolvido no certificado de Food Studies da Dickinson, foi uma jornada muito longa. Esse percurso nem sempre foi prazeroso e começou em 1987. Naquela época, decidi estudar Nutrição porque curtia muito fazer e vender sanduíches na hora do lanche do Intergraus, o cursinho que fiz para me preparar para a FUVEST. Entrei na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, projetando aprender mais sobre comida e ciências biológicas. Mas interrompi esse estudo na USP quando emigrei para os Estados Unidos em 1990. Sempre me interessei muito em outras culturas e também na exploração da minha própria história e relação com a comida. Experiências pessoais envolvem o âmbito cultural, contextos socioeconômicos, e muitas vezes traumas. No meu ponto de vista e vivência, a exploração individual e social conectada à comida pode trazer muita coisa à tona. 

Em algumas ocasiões, algumas partes da minha trajetória, trouxe oportunidades de rever situações penosas e as realizações da minha dor foram compartilhadas com o meu grupo de estudantes e instrutores, de uma forma bem terapêutica para mim. Sem dúvida nenhuma, ficou claro que esse estudo com ênfase e análise multidisciplinar não só abriu a minha mente (e o meu coração) mas também como o de todos os participantes. As aulas do currículo do certificado (como “African American Foodways”, “Fat Studies”, “Introduction to Soil Science” e outras excelentes fontes de conhecimento) me ensinaram a avaliar alimentos usando um ângulo crítico, e identificando conexões biológicas, culturais, sociais e econômicas. Esse tipo de estudo empírico me motivou a aplicar conceitos e teorias aprendidos resultando em um efeito muito mais positivo e útil, não só na minha educação, mas também como na minha vida familiar e social. Viva o Food Studies!

 

Especial por

Nídia Werner – Nídia começou estudar Nutrição na FSP-USP com Marle Alvarenga em 1989), mas migrou para os EUA onde concluiu o curso de Food Studies. Hoje em dia ela está empenhada em aprender a respirar melhor, exercitar o seu corpo e meditar. Ela continua a cozinhar e falar muito sobre comida. E continua muito amiga e admiradora da Marle, a quem teve a oportunidade de levar para conhecer a cidade de Hershey, onde há a famosa fábrica de chocolate americana, mas sem o Willie Wonka. (Marle pede para acrescentar que tem honra de ter uma amiga com todo este conhecimento).

Sugestões de livros:

 

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