Comida para além da poética: A fome no Brasil, hoje e sempre

por Katherina Cordás

Comida para além da poética

Tem sido difícil para mim falar sobre comida com cada vez mais brasileiros passando fome. Meu trabalho permeia diariamente o assunto alimentação e, claro, ao se trabalhar com gastronomia costumamos olhar para o lado bom dela, fazendo, muitas vezes, vista grossa para os problemas que a comida – ou a falta dela – traz para nossa sociedade.

Trabalho há alguns anos com gastronomia. Passo meus dias entre almoços, jantares e degustações, falando, pensando e trabalhando com e sobre comida. Sou diretora de novos projetos em uma agência de comunicação e consultoria gastronômica, onde, entre outras tarefas, meu papel é comer.

De noite, chego em casa, abro o computador e mergulho no meu hobby – minha pesquisa sobre alimentação e cultura, que começou como um dos resultados da minha pesquisa de pós graduação, “representações visuais na alimentação” e tornou-se meu passatempo favorito, o que culminou no Instagram @digameoquecomes. Pois é, eu não cozinho muito, mas respiro comida todos os dias, todas as horas.

A fome no Brasil, hoje e sempre

De uns tempos pra cá estou com dificuldade de falar sobre o assunto. Não que a fome seja um problema atual – inclusive, longe disso. Mas o número de pessoas em situação de extrema pobreza dobrou em 2020.

Ironicamente, nosso planeta produz alimentos capazes de suprir toda a população mundial – e, mesmo assim, ainda existe fome, e muita. Não à toa, não tem como não me sentir um pouco hipócrita contando a história do, sei lá, Lardo di Colonnata, enquanto isso.

Eu sei que falo da poética da comida e sei que isso é um privilégio. Fome, para mim, não é apenas política. Fome, vai muito além da opinião política. Fome é sobrevivência, é sobre direitos humanos.

Esse texto é sobre posicionamento e reconhecimento do meu próprio privilégio. É sobre conscientização. Esses dias lembrei da obra “Arroz e Feijão”, de 1979 da artista Anna Maria Maiolino. Mudas de arroz e feijão plantadas em pratos de louça, distribuídos em um extenso banquete. A obra fala de igualdade e de distribuição justa de recursos. Fala do alimento como política, como relação social. Fala do precioso elo da comensalidade, da relação entre os espaços comuns e das diferenças criadas pela fome.

Em 1965, o cineasta Glauber Rocha escreveu o manifesto “Estética da Fome”, onde questionava o ponto de vista do observador europeu sobre a arte latino-americana, denunciando a sua “nostalgia de primitivismo”. Na obra de Glauber, “a fome não se define como tema. Ela se instala na própria forma do dizer. Procura redefinir(…)a carência de recursos, invertendo posições diante das exigências materiais e as convenções de linguagem próprias ao modelo industrial dominante”, pontuou Ismail Xavier.

Assim como discutimos outras vezes sobre este assunto, as escolhas alimentares e o comer, vai muito além de escolhas individuais, temos que analisar todo o contexto social ao que o indivíduo faz parte.

Mas, será que hoje somos nós, brasileiros de classe média/alta, que temos esse olhar ausente a que Glauber Rocha se refere? Acostumados a aliviar a culpa com pequenos gestos, quase curiosos e pouco eficazes? Até quando vamos tratar a fome como consequência estrutural normalizada de uma história que perdura há séculos?

O Brasil é um dos países que menos doa na pessoa física. O que você faz para ajudar e incentivar outros a fazerem o mesmo? Aqui, algumas sugestões de ONGs que ajudam no combate a fome: @gente.prabrilhar, @acaodacidadania, @ongbancodealimentos, @gastromotiva, #olheparaafome.

 

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