Qual seu material de trabalho nutricionista? Você se atenta às novidades e tendências na área de alimentos?

Não falo sobre planners, programas ou softwares, muito menos balanças e adipômetros …

A comida, o alimento, a bebida, os produtos alimentícios, até mesmo os suplementos são, ou deveriam ser material de trabalho para um nutricionista.

Hoje em dia, para nos habilitarmos a fazer nossas escolhas alimentares de forma consciente, precisamos de um pouco mais de conhecimento do que apenas sobre o são proteínas, carboidratos, gorduras, etc.

E não estou falando sobre o contar nutrientes, calorias, ou saber exatamente quantos gramas de proteína tem na dieta. Não, não é sobre isso, não é de nutricionismo que quero falar. Nem combina com esse Blog lindo do Instituto Nutrição Comportamental.

É sobre entender o que o seu paciente come, ter acesso, entender o que gera dúvidas nele. É sobre conhecer minimamente tecnologias e processos produtivos que resultam em um produto melhor ou pior. É saber interpretar aquela lista de ingredientes com nomes esquisitos (que na maioria da vezes são esquisitos mesmo, não precisavam estar ali, mas outras estão ali por uma questão simples, como dar corpo a uma bebida por exemplo, não causam danos, as vezes são até de fonte natural, mas só pelo fato de não ter um nome tão familiar, porque muitas vezes a legislação exige que assim o seja, ajudamos a “tocar o terror” em nosso paciente)

Pensando em tudo isso quero te contar 5 novidades e tendências do que está rolando na área de alimentos que todo nutricionista deveria saber. Novidades essas que em breve seu paciente vai te perguntar, se é que já não perguntou.

Leia até o final, que ainda guardei 3 dicas de como se manter atualizado nesses assuntos de forma bem prática.

 

5 Novidades e tendências na área de alimentos

  • Clean Label

Você já deve ter ouvido falar desse termo né? Produtos Clean label, são aqueles que buscam ter uma lista de ingredientes mais enxuta e com nomes reconhecidos na descrição. Uma pesquisa feita pela Equilibrium com mais de 200 nutricionistas em 2019, mostrou que a lista de ingredientes é o fator número 1 para análise e recomendação de um produto, ganhando até da tabela nutricional.

Substituir ou retirar uma série de ingredientes que tem funções tecnológicas no produto por um mais natural , não é algo simples para indústria. Isso pode impactar em primeiro lugar na segurança, pois, se ter conservante não é nada bom, o produto chegar estragado, com bolor, ou até mesmo sem aparência de deterioração e o consumidor consumir sem perceber é ainda pior.

Uma série de estudos de vida de prateleira e aspectos sensoriais são necessários. Por exemplo: ninguém quer que exista nenhum conservante em uma água de coco certo? Mas ninguém também quer consumir ela meio amarelada; o que é uma oxidação natural, mas para impedi-la, a indústria (nem todas as marcas) acrescenta um tipo de conservador. Melhor consumir então direto do coco? Sim, claro! Mas nem sempre nosso paciente consegue.

Vamos torcer para que a indústria siga cada vez mais nessa direção, de ter receitas mais naturais e seguras possíveis.

O Brasil já é o 3.o país do mundo, quando o assunto é a busca por termos relacionados ao clean label. A indústria de ingredientes tem colocado seus esforços em desenvolver matérias primas que possam substituir ingredientes artificiais. Nós nutricionistas temos total envolvimento com isso, orientando nossos consumidores a buscar produtos mais naturais, estamos ajudando com essa demanda. Recentemente, uma marca de produtos cárneos conseguiu desenvolver um presunto substituindo conservadores artificiais, que eram inclusive importantes para segurança da toxina botulínica, por extrato de alecrim, aipo e acerola.

  • Plant Based

Traduzindo “ao pé da letra” para nós brasileiros pode soar meio estranho. Se seu paciente ouvir você dizer que as pessoas deveriam ter uma dieta “ a base de plantas”, é bem capaz de ele se imaginar comendo a samambaia ou a espada de São Jorge da mãe dele! kkkk

Brincadeiras à parte, esse conceito tem crescido muito no Brasil e no mundo. Você certamente acompanhou marcas de hamburguers criando versões similares de vegetais, marcas de bebidas crescendo na substituição do leite. Agora é a vez do ovo. O Ovo que não tem ovo, maionese que não tem ovo, até frango que não tem galinha. Confuso? Com certeza. Necessário? Talvez sim.

Seria uma revolução no conceito que temos sobre comida de verdade?

Temos cerca de 30 milhões de vegetarianos no Brasil, uma fatia ainda pequena da população, Mas segundo o The Good Food Institute  , 50% da população diz estar reduzindo o consumo de carne e para 62% das pessoas, consumir produtos vegetais que lhes deem experiências parecidas ou melhores do que os alimentos cárneos (nos aspectos de sabor, aroma e textura) são muito importantes.  A dieta flexitariana parece ser a mais promissora e realista para os próximos anos.

É também o que fala o relatório da Eat lancet de 2019, um marco científico sobre o tema. O material elaborado por cientistas do mundo todo diz que devemos reduzir em 50% nosso consumo de carne e dobrar o consumo de vegetais para salvarmos o planeta de um colapso alimentar.

Os produtos plant based ainda são mais caros, muitas vezes não são clean label, pois precisam de aditivos e aromas para deixá-los parecidos aos naturais, mas o trabalho de pesquisa não para. Com o tempo, e o aumento da demanda, os produtos serão melhores e mais acessíveis financeiramente. Isso sem falar da carne de laboratório hein, mas vou deixar para uma próxima oportunidade

  • Saúde mental e alimentos

Sabemos que a pandemia do Corona vírus atingiu muitas pessoas, mas os números de infectados nem se compraram com a devastação feita na saúde mental da população. Um estudo preliminar do ministério da saúde mostra que mais de 86% dos brasileiros sofrem de ansiedade e 16% de depressão atualmente.

Lidar com tudo que nos sobreveio não tem sido tarefa fácil, mas e aí? O que os alimentos têm a ver com isso?

Existe um crescimento na busca por alimentos que possam de alguma forma ajudar no relaxamento das pessoas; chá es ervas já têm sido usadas, mas em alguns países já são permitidas algumas substâncias chamadas nootrópicos nos alimentos, das quais melatonina e canabis por exemplo, fazem parte. Aqui no Brasil não são possíveis o uso de substâncias assim em alimentos, por isso observamos outro movimento em termos de comunicação e prestação de serviços de algumas marcas. Movimentos de valorização do ato de comer, iniciativas sobre mindfull eating e a criação de rituais são alguns deles. Uma marca de massas criou uma campanha de divulgação de playlists que duram o tempo certo do preparo de uma receita para que o consumidor curta mais o momento do preparo dos alimentos. Ainda vamos ver esse movimento crescer muito por aqui

 

  • Suplementos e imunidade

O mercado de suplementos alimentares não sentiu o impacto da crise econômica. Segundo dados do portal mercado livre, durante o primeiro trimestre da pandemia foi a 3ª categoria de produtos mais vendida, perdendo apenas para luvas e álcool em gel. Vimos as ´prateleiras de vitamina C e Zino se esvaziarem nas farmácias. As pessoas piraram achando que o consumo de vitaminas, minerais e outros suplementos as salvaria do vírus.

Sabemos que não existe fórmula mágica para o aumento da imunidade, além da alimentação equilibrada, existem outros fatores associados, mas a demanda e o interesse dos consumidores sobre o tema imunidade ainda não parou e além dos suplementos, os alimentos com algum benefício nesse sentido também foi buscado por 36% dos consumidores, segundo pesquisa da Mintel. Marcas começaram a criar produtos com nomes que trazem alguma referência a imunidade, geralmente acrescidos de vitaminas, betaglucana e fibras.

Cabe a nós nutricionistas orientarmos nossos pacientes quanto ao consumo desses produtos e seus efeitos não milagrosos.

  • Novos selos frontais nos alimentos

Há mais de uma década, a questão da informação nutricional na frente da embalagem, de forma simplificada vem sendo discutida não só no Brasil, mas no mundo todo. Em 2017, iniciou-se no Chile e depois em outros países do MERCOSUL o uso de símbolos pretos na frente dos produtos que tinham quantidades elevadas de sódio, açúcar e gorduras. A principal questão, que gerou inclusive muita polêmica, foi: O que são quantidades elevadas? Será que a quantidade de sódio elevada como referência pode ser a mesma para um queijo parmesão e um iogurte?

Mas eu não quero discutir isso neste texto com vocês, os critérios já são águas passadas, pois em setembro de 2020, a ANVISA aprovou o modelo de lupas pretas na frente dos rótulos dos produtos, e as empresas têm um prazo de 2 anos para adequação. Passaremos a ver essas imagens nos produtos.

 

Talvez isso imponha de certa forma uma mudança no comportamento de consumo das pessoas. No Chile por exemplo, muitos produtos com o selo tiveram suas vendas caindo em um primeiro momento, pois as pessoas ficaram assustadas com aquilo, porém como o passar do tempo, produtos indulgentes como chocolates e biscoitos, foram novamente sendo adquiridos. Os consumidores se acostumaram com a imagem e entenderam que já que todos os produtos de determinada categoria tinham o selo, então tudo bem…

Ou seja, é preciso esperar, mas pode ser que toda essa mudança nos rótulos não cause uma mudança duradoura no estilo de vida das pessoas e em suas escolhas alimentares.

Vamos acompanhar e entender que nosso papel é poder orientar nossos pacientes, literalmente além dos rótulos.

 

O que fazer para manter-se atualizada nesse universo de novidades e tendências na área de alimentos?

Existem alguns profissionais que acreditam que tudo que é industrializado faz mal e não deveria ser consumido em hipótese alguma, salvo talvez em caso de guerras e epidemias (algo soa familiar?). Acabam por isso, negando se informar sobre os movimentos da indústria. No meu ponto de vista, se queremos ter a EMPATIA, que falamos tanto, de entender a posição do outro, isso passa por conhecer alimentos e produtos que fazem parte da realidade dele.

Por outro lado, outros nutricionistas por vezes, vivem em uma “bolha alimentar”, permitam-me chamar assim. Consomem e conhecem produtos tido como mais saudáveis, recomendam esses produtos e marcas e acabam simplesmente esquecendo, ou querendo não ver, os produtos que são mais consumidos pela maioria da população.

Um exemplo do que estou falando: Mesmo com a crise econômica e todo o movimento plant based o consumo de cárneos não reduziu no Brasil, a maior parte das pessoas, não saiu do “coxão mole” e foi para a lasanha de beringela, eles escolheram os embutidos como substitutos. Precisamos ter o cuidado de olhar para tudo isso para que possamos DE FATO ajudar nosso paciente, o COMEDOR a ser mais habilitado em suas escolhas. Por isso, precisamos buscar por constante atualização e revisão das novidades e tendências na área de alimentos.

 

E o que podemos fazer para nos atualizarmos na prática? Dicas para buscar por novidades e tendências na área de alimentos

 

DICA 1 – Vá a lojas de produtos naturais sim, mas em supermercados POPULARES também

Empórios e lojas de produtos naturais são uma diversão para nós, precisamos ter a prática de ir, degustar e conhecer novos produtos sempre. São um celeiro de inovação, mas esses lugares não nos mostram o que os mercados de bairro cheio de ofertas na porta e atacarejos  têm vendido. Marcas e produtos que você não vai consumir ou prescrever, talvez o público que você atenda também não compre nesses lugares, mas o BRASIL sim, e é sempre bom podemos entender a realidade do nosso país para não viver na bolha, lembra?

DICA 2 – Leia sobre o assunto, além das páginas ativistas….

Onde você costuma buscar informações sobre produtos e novas tecnologias? Será que você faz esse movimento ativo? Nada contra seguir páginas que se posicionam contra indústria, tem muitas verdades por lá, mas como em tudo na vida, é necessário ouvir o outro lado. Siga algumas marcas de alimentos no Instagram, têm dúvida sobre os produtos, entre em contato com elas pelo SAC, se identifique como nutricionista, peça explicações.

DICA 3 – Receba as comunicações das indústrias de alimentos, depois tire suas conclusões

Muitas marcas se comunicam de forma ativa com os nutricionistas para mostrar o processo produtivo, e a ciência por traz dos produtos. Receber um representante, visitar um stand de marca em congresso, mesmo que virtualmente agora. É importante sempre ouvi-los para depois tirar as próprias conclusões. Mesmo quando se trata de marcas que você não gosta ou confia, tendo a oportunidade do diálogo, faça isso. Dessa forma você também vai ajudar a construir marcas mais saudáveis

Como nutricionista e consultora há anos nesse mercado de alimentos, as vezes me sinto frustrada, claro, nem sempre nossas recomendações são aceitas, mas me lembro com orgulho de projetos que pude contribuir com o conhecimento da nutrição e que fizeram a diferença. E não é esse o papel de um nutricionista, analisar a qualidade dos produtos, apontar melhorias e ajudar no processo de transformação? Sou honrada e feliz com essa missão, e espero ter te inspirado a olhar as novidades do mercado de alimentos com outros olhos 😊

 

Autora: Carol Godoy, nutricionista especializada em inovação e comunicação para o mercado de alimentos e diretora da empresa Equilibrium Latam.

 

REFERÊNCIAS:

 

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