Novo Guia Alimentar para Americanos: este documento atualizado tem causado tanta polêmica entre nutricionistas e profissionais da saúde. Vamos entender o por quê?

Em dezembro de 2020 foi lançado o novo Guia Alimentar para Americanos (Dietary Guidelines for Americans 2020-2025)1 ,pelo Departamento de Agricultura e de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, sendo este documento correspondente ao “Guia Alimentar para a População Brasileira”2 e ao “Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos”3, disponibilizados pelo Ministério da Saúde do Brasil.

 

O que são Guias Alimentares e qual é a sua relevância na saúde?

O guia alimentar é um material utilizado por profissionais da saúde, principalmente nutricionistas, afim de orientar diretrizes alimentares.

Primeiramente, a necessidade de desenvolver um guia alimentar foi colocada já em 1894, por Wilbur Olin Atwater, juntamente com a USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). Então, em 1965 foram estabelecidos os “Basic Four”, para suprir a demanda dos americanos para desenvolver um planejamento dietético. Em 1980 a USDA estabeleceu o primeiro “Dietary Guidelines for Americans”.

Outras formas de guiar a alimentação da população e estabelecer algumas diretrizes foram propostas de forma complementar, como a pirâmide alimentar (My pyramid), criada em 1992 com objetivo de separação e classificação dos alimentos. Assim, ela foi sendo atualizada, adaptada e utilizada por muitos anos, em vários países. E depois, houve ainda a proposta do My Plate. Este modelo buscou estabelecer de forma prática e objetiva a composição de uma refeição “ideal”, com todos os nutrientes equilibrados no prato.

Entretanto, o Guia Alimentar para Americanos ainda é um documento muito utilizado e indispensável nas diretrizes alimentares da população, sendo atualizado de 5 em 5 anos. A edição de 2020-2025 foi a primeira na qual foram abordadas as necessidades nutricionais para todas as idades, desde a introdução alimentar até as recomendações diárias de idosos.

Além disso, um dos aspectos ressaltados nesta versão são algumas questões de saúde pública visando evitar determinadas doenças não transmissíveis relacionadas à hábitos alimentares.

 

Guia Alimentar para a População Brasileira: um queridinho entre os nutricionistas

No contexto brasileiro, o primeiro Guia Alimentar foi publicado em 2006. E quase 1 década depois a equipe NUPENS, coordenada pelo professor e pesquisador Carlos Monteiro propôs uma classificação na qual os alimentos são alocados conforme os níveis de processamento até chegar ao consumidor final, denominada “NOVA”4.

A NOVA, classifica os alimentos em 4 grupos:

  1. In natura ou minimamente processados;
  2. Ingredientes culinários;
  3. Processados;
  4. Ultra processados.

Sendo que esta classificação está presente na 2ª ed. do “Guia Alimentar para a População Brasileira” 2.

 

Guia Alimentar para Americanos x Guia Alimentar para a População Brasileira

O “Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos” e o “Guia Alimentar para a População Brasileira”, em conjunto, possuem conteúdo mais abrangente do que o Guia Americano. A linguagem é menos técnica e acessível à população, possibilitando um maior aproveitamento das diretrizes aos seus leitores.

Além disso, esses guias ressaltam a importância de respeitar os fatores biopsicossocioculturais da alimentação, que merecem o devido destaque, como sempre ressaltamos no Instituto Nutrição Comportamental. Outros temas relevantes citados nestes documentos são a maior consciência de consumo, incentivando a aquisição de alimentos com produtores locais, bem com a prevenção doenças crônicas não transmissíveis por meio de uma alimentação saudável.

 

O que dizem os pesquisadores, nutricionistas e profissionais da sáude?

Marion Nestle escreveu em seu site, “Food Politics”, sobre o novo Guia Alimentar Americano, afirmando que ele aparentar ser “lamentavelmente desatualizado”5 repetindo muito os mesmos temas do anterior. Entretanto, fez alguns elogios, como ter mais conteúdo, citar a pandemia, a insegurança alimentar e programas de assistência alimentar, embora não discutam como a USDA não tem tido muitos resultados na tentativa de impedir o corte destes programas no contexto americano.

O “Guia Alimentar para Americanos” tem uma diretriz mais técnica e não cita aspectos importantes que exercem grandes influências sobre a alimentação. Em comparação, o Guia Alimentar para a População Brasileira – muito elogiado pela FAO, OMS e UNICEF6, é um exemplo a ser seguido.

Conclui-se que o guia disponibilizado pelo Ministério da Saúde tem orientações mais amplas que destacam o respeito aos gostos pessoais, hábitos e preferências alimentares. Outros aspectos abordados são o foco no tempo e prazer em comer, comensalidade e habilidades culinárias.

Vale ressaltar, como sempre defendemos como Instituto Nutrição Comportamental, que alimentação não se restringe ao ato biológico, e são diversos fatores biopsicossocioculturais que determinam as escolhas alimentares, e que devem GUIAR o nosso comer.

 

Por Giulia Alario Endsfeldz – Estudante de Nutrição FSP-USP

Referências:
1 – https://www.dietaryguidelines.gov/sites/default/files/2020-12/Dietary_Guidelines_for_Americans_2020-2025.pdf

2 – https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

3 – http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guia_da_crianca_2019.pdf
4- http://www.fsp.usp.br/nupens/aprenda-a-classificar-alimentos/

5 – https://www.foodpolitics.com/tag/dietary-guidelines/
6 – https://www.fsp.usp.br/nupens/nota-oficial/

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