Muito do que os pacientes trazem ao consultório envolve memórias afetivas do comer. Para trabalhá-las é necessário um bom entendimento do porquê comemos os que comemos.

Na apresentação do livro Nutrição Comportamental iniciamos com Michael Pollan nos dizendo que, historicamente, pessoas comem por diversas outras razões que não as necessidades biológicas.

Ele também declara que comida também é prazer, comunidade, família, espiritualidade, relacionamento com o mundo natural e também é expressão de nossa identidade.

E, segundo Pollan, a partir do momento em que os seres humanos começaram a fazer refeições em conjunto, comer passou a fazer tão parte da cultura como da biologia.

Acreditamos nesse “algo a mais” da comida, que comer é ir muito além de ingerir nutrientes, e você?

Consegue ter essa dimensão, fantástica diga-se, do ato de comer?

Eu me permiti. Comer agora envolve significados, pensamentos, sentimentos e emoções. Comer não exclui o biológico,                mas vai além dele. 

Que tal refletirmos sobre nossas memórias afetivas do comer?

Ao fechar os olhos você consegue fazer uma lista das suas comidas preferidas?

Elas despertam algumas emoções? Quais?

E memórias? Te remetem à algum significado especial?  Te faz lembrar alguém com quem você costuma ou costumava compartilhar este alimento? Alguém que cozinhou para você?

Te traz alguma lembrança boa ou ruim?

Há alguns alimentos ou receitas que tem um significado e traz uma memória afetiva tão especial, que tem o poder de transportar para outro lugar. Consequentemente trazem memórias de alguém ou algum período que marcou sua vida.

Compartilhando as minhas memórias afetivas do comer

Eu tenho várias memórias afetivas do comer. E naquelas mais doces memórias de infância eu me lembro de estar na cozinha com minha avó paterna, durante as férias. Lembro de fazer rosquinhas com açúcar e canela e sonhos recheados com goiabada.

Na cozinha nós éramos uma dupla e tanto, eu inventava e ela realizava meus desejos, bem coisa de vó, não é mesmo?

Ela providenciava todos os ingredientes, separava os utensílios, dedicava seu tempo e toda a sua paciência para que fizéssemos as receitas juntas. Como resultado, a família era presenteada com nossas gostosuras e, nós duas passávamos horas na cozinha,  nos deliciando também.

Que tempo bom, cheio de sabores e aromas, sem pressa e cheio de querer. Com certeza essas memórias não são só minhas, até hoje, no auge dos seus 95 anos, minha avó Clarice adora relembrar e contar para os meus filhos, seus bisnetos, tudo o que aprontávamos juntas.

Que delícia viver isso, permitir que a comida exerça esse papel nas nossas vidas!

Construindo novas memórias afetivas de geração para geração

Durante esses dias de quarentena, quando tivemos que nos reinventar, eu consegui vivenciar com mais intensidade os momentos na cozinha, tanto sozinha nos vários almoços e jantares do dia a dia, quanto com meus filhos, nos finais de semana, quando tínhamos mais tempo e liberdade para criar.

Theo, meu filho mais velho de 9 anos sempre demonstrou mais interesse em cozinhar, se aventurando comigo e depois se deliciando com as nossas invenções na cozinha.

Da mesma forma que eu tinha o meu caderno de receitas, no qual eu escrevia à mão as receitas da vó Clarice, ele começou o dele. E ali anotava o que tinha aprendido durante esses dias. Com esses momentos, meu coração se encheu ao poder resgatar parte da minha infância e das minhas memórias afetivas do comer.

Claro, em um  outro formato agora, eu e meus meninos, testamos várias receitas, aprendendo, errando, pesquisando, nos divertindo, e o mais importante é que criando memórias e deixando a comida ocupar o lugar que lhe é de direito.

Surge um negócio que vai deixar memórias

Depois de algumas semanas na cozinha nasceu o “Delícias do Theo”, com um cardápio feito manualmente no caderno pautado e que ele me pediu para enviar para a família, pelo grupo de whatsApp.

Com essa ideia de vender cookies, biscoitos e bolos para a família e amigos próximos, Theo estriturou o seu próprio negócio e uma forma de ter seu próprio dinheiro. A partir disso tivemos a estreia do Chef Theo e, eu, com muita honra, ocupando o lugar da minha avó, como sua ajudante.

Foi assim que começamos a passar mais tempo juntos. E os finais de semana passaram a incluir massas, fôrmas e fornadas. Isso sempre com aquele cheirinho delicioso invadindo a casa. Depois de tudo pronto, embalamos e fazemos as entregas.

A comida se expande e ocupa seu lugar, novamente nos proporcionando encontros e momentos de alegria e sorrisos (por trás das máscaras) ao vermos nossos queridos e entregarmos as doçuras que produzimos com tanto carinho.

É realmente muito mágico como a comida pode nos reconectar com quem amamos, com a gente mesmo e também pode ser o início de muitos outros aprendizados.

Incluímos a matemática,  a educação financeira, além de muitas trocas e conversas por conta do “Delícias do Theo”… ah e ainda ouvimos nossas músicas e cantamos quando estamos na cozinha.

Um contive às memórias afetivas do comer

Com tudo isso, se você acha que a comida só se resume aos nutrientes que ela traz para o nosso corpo, ao seu papel biológico, eu quero te fazer um convite:

Para você se permitir, deixar a comida ampliar seu papel na sua vida, te transportar e  te trazer as mais doces, divertidas e deliciosas memórias afetivas do comer.

Essa experiência pode ser muito rica e especial e, por isso, devemos cuidar desses momentos. E também não esquecer dos amplos significados como nos lembrou Pollan.

Eu desejo que você possa se permitir, deixar a comida exercer todos os papeis que ela pode exercer em sua vida, cada preparação com sua função, no seu momento, na sua época, evocando algo especial, mas que simplesmente possamos viver tudo isso, saboreando as memórias e todos os sabores que o comer nos proporciona!

Autor:

Samantha Macedo Basso

 

Referência:

Pollan, M. Em defesa da comida. 2008

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