=Se você pratica a abordagem comportamental, já deve saber a resposta para a pergunta: “Por que não fazer dieta está associado com a prevenção dos transtornos alimentares ?”

E se ainda restam dúvidas, vamos o objetivo deste texto é justamente falar da importância de uma abordagem não dieta, ou não prescritiva.

Para começar, o termo dieta pode ter vários significados no dicionário, podendo descrever os hábitos alimentares individuais, e caracterizar uma cultura ou sociedade, por exemplo, a dieta mediterrânea. O emprego da palavra dieta também está associado a uma forma de conter o peso e regime de emagrecimento.

 

Como a dieta está relacionada a prevenção dos transtornos alimentares?

Popularmente, dieta hoje é significado de restrição, privação, pular ou deixar de fazer determinadas refeições, evitar comer determinados alimentos.

Diante do atual contexto, diversos estudos científicos sobre esta temática foram realizados, e reforçam que dietas restritivas são consideradas fatores desencadeantes de transtornos alimentares (TA) em indivíduos que apresentam predisposição individual, psicológica, familiar e genética (1).

O estudo sobre essa associação é antigo, e já na década de noventa, pesquisadores indicavam que fazer dieta restritiva severa aumenta em 18 vezes o risco relativo de desenvolver transtornos alimentares em mulheres (2).

 

Qual é o papel do nutricionista ?

Com as experiências de atendimento dos transtornos alimentares, é evidente a necessidade de ajudar os pacientes a entenderem os riscos da restrição, seus prejuízos em sua vida e na manutenção dos sintomas.

É comum escutamos histórias de pacientes com anos fazendo dietas restritivas, e nosso papel é ajudar a entenderem os impactos destas dietas no metabolismo, e consequentemente na sua regularização. Consequentemente, essa compreensão por parte dos pacientes é um grande desafio, com uma grande resistência em querer mudar essa “mentalidade de dieta”.

Ao estudar há muito tempo estratégias de prevenção destes quadros de TA, acompanho algumas pesquisas de intervenções populacionais. Os estudos desenvolvidos com crianças e adolescentes para prevenção dos distúrbios do comportamento alimentar,  incluem além dos transtornos alimentares, o comer transtornado e a obesidade (3,4). Em conclusão, a  prevenção deve ser conjunta pois todos são considerados problemas relacionados ao peso.

 

Qual a diferença entre os transtornos alimentares vs comer transtornado?

O termo comer transtornado é utilizado para se referir a pessoas que tem comportamentos inadequados para perder ou tentar controlar o peso. Comportamentos estes que incluem restrição, compulsão e compensação, mas que não chegam a frequência e gravidade dos critérios diagnósticos dos transtornos alimentares.

O comer transtornado é muito mais prevalente e comum na clínica do nutricionista. Assim, a prevenção dos transtornos alimentares também inclui prevenir comer transtornado, e isto envolve ensinar – desde a infância e a adolescência, a não fazer dieta!

Sendo assim, os resultados das intervenções preventivas na literatura indicam que abordagens com efeitos positivos na redução do risco de TA devem incluir conteúdos de alimentação saudável, em que a nutrição vem com uma abordagem de não-dieta, aceitação e satisfação corporal, promoção da atividade física saudável e autoestima, e a “media literacy” que pode ser traduzida como educação sobre a mídia e efeitos da pressão sociocultural, (5,6).

 

O que podemos fazer para prevenção dos transtornos alimentares em nossos pacientes?

Como nutricionistas, é importante ressaltar o nosso papel como agentes de prevenção, uma vez que muitas vezes chegam ao consultório pacientes insatisfeitos com o peso e corpo e com uma demanda por uma dieta restritiva.

Alguns pontos importantes ficam aqui para reflexão sobre a nossa prática clínica:

  • Entender quais são as reais motivações para perder peso, principalmente se a expectativa em relação à perda de peso corresponde à realidade. Ao estar diante de um paciente em risco de desenvolver um TA, ou ainda com um quadro de comer transtornado, ter uma conduta diferenciada. Afinal a conduta profissional de “passar uma dieta” pode ser um desencadeador do quadro de TA ou comer transtornado.
  • Cultivar um conhecimento profundo sobre os problemas relacionados ao peso para que o profissional consiga perceber os sinais e sintomas, e trabalhar esta questão com o paciente.
  • Também devemos pensar nesta abordagem não-dieta como estratégia de prevenção. Ter conhecimento e treinamento nas abordagens comportamentais, incluindo a da Nutrição Comportamental,  é essencial para a condução do processo de mudança. Estas abordagens são indicadas em vários estudos de prevenção dos transtornos alimentares, tanto para indivíduos como para grupos.

 

O que seria a abordagem não-dieta?

A abordagem não-dieta inlcui  apresentar os conceitos sobre alimentação saudável, incluindo o consumo de frutas e vegetais e a redução do consumo de bebidas açucaradas. Também são lveados em conta a importância das refeições principais, tamanho das porções e os riscos das práticas inadequadas de controle e perda de peso.

Além disso, é importante discutir as razões para comer, por exemplo, em resposta a fome, estresse emocional e situações sociais). E terceiro, argumentar sobre a consciência corporal, por exemplo, sensação de fome e saciedade) (7).

Por último, devemos entender que somos formadores de opinião em relação a saúde, alimentação e peso corporal, e como modelos de bons comportamentos também devemos cuidar de nós, entrando em contato com nossas crenças pessoais, preconceitos e adesão a modismos. Sendo assim isso pode impactar nossa forma de atuar e orientar nossos pacientes a fim de trabalhar com a  prevenção dos transtornos alimentares.

Se você tiver mais interesse sobre as consequências das dietas restritivas, confira o curso sobre a temática clicando aqui!


Fonte:

Karin Dunker

Nutricionista pela USP. Mestre e Doutora pela USP. Pós Doutora pela UNIFESP. É autora principal do primeiro programa de prevenção integrada (obesidade e transtornos alimentares) do Brasil – o New Moves, realizada em escola estaduais de SP.

Membro do Conselho técnico da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (ASTRAL), Grupo Especializado em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade – GENTA e do Núcleo de Pesquisa (NUPE) do AMBULIM-IPq-HC-FMUSP. Organizadora do livro Transtornos Alimentares e nutrição: da prevenção ao tratamento. Editora Manole, 2020.

 

REFERÊNCIAS:

1)Gonzalez MO, Oliveira ETM, Salzano FT, Cordás TA. Transtornos Alimentares: critérios diagnósticos, quadro clínico e complicações, epidemiologia e etiologia. In: Alvarenga M, Dunker K, Phiippi S. (Org.). Transtornos Alimentares e Nutrição: da prevenção ao tratamento. 1aed.Barueri: Manole, 2019, p. 467-483.2)Patton GC, Carlin JB, Shao Q, Hibbert ME, Rosier M, Selzer R, et al. Adolescent dieting: health weight control or borderline eating disorder? J Child Psychol Psychiatry 1997;38:299­306.
3) Rancourt D, McCullough MB. Overlap in Eating Disorders and Obesity in Adolescence. Curr Diab Rep 2015; 15(10):78.
4) Sanchez-Carracedo D, Neumark-Sztainer D, Lopez-Guimera G. Integrated prevention of obesity and eating disorders: Barriers, developments and opportunities. Pub Health Nutr 2012; 15(12):2295-309.
5) Ciao AC, Loth K, Neumark-Sztainer D. Preventing eating disorder pathology: common and unique features of successful eating disorders prevention programs. Curr Psychiatry Rep. 2014;16:453.
6) Wade TD; Davidson S; O´Dea JA. A preliminary controlled evaluation of a school-based media literacy program and self-esteem program for reducing eating disorder risk factors. Int J Eat Disord. 2003; 33:371-383.
7) Dunker KLL, Alvarenga M, Romano E, Timerman F. Nutrição Comportamental na prevenção conjunta de obesidade e comer transtornado. In: Alvarenga M; Figueiredo M; Timerman F; Antonaccio C. (Org.). Nutrição Comportamental. 2aed.Tamboré: Manole, 2018, p. 465-483.

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