Definir o termo “comportamento alimentar” não tem sido uma tarefa simples dado a amplitude de aspectos que esse conceito envolve. Tanto os textos científicos quanto as demais formas de disseminação de conhecimento na área de Nutrição não apresentam de maneira clara e consensual o significado deste construto o que tem dificultado seu entendimento e formas de avaliação. Considerando sua natureza multidimensional, o comportamento alimentar deve ser entendido como um conjunto de fatores que envolve cognições e afetos os quais estão diretamente relacionados às condutas alimentares dos indivíduos e que sofrem influências psicológicas, sociais e culturais (1, 2). A partir dessa definição entende-se que o ato de escolher e ingerir um alimento para receber seus nutrientes são desfechos de uma conduta estruturada à priori baseada em pensamentos, crenças e sentimentos do próprio indivíduo, bem como no ambiente que ele está inserido. Portanto, os diversos aspectos envolvidos na alimentação apesar de estarem interligados têm significados diferentes e precisam ser clarificados visando auxiliar clínicos e pesquisadores quanto as melhores formas de investigação.

Indiscutivelmente, o consumo alimentar (ato de ingerir alimentos) e nutricional (obtenção de macro e micronutrientes dos alimentos) são os aspectos mais avaliados tanto na prática clínica quanto em protocolos científicos, uma vez que eles estão fortemente relacionados a prevenção e ao tratamento de doenças (3). Contudo, nos últimos anos a Nutrição tem avançado como uma ciência que além do contexto biológico (4) também busca compreender o psicológico, o social e o cultural (5-8). Desde 1989, Lewis e colaboradores (9) afirmam que as pessoas selecionam os alimentos mais por questões psicossociais do que por necessidades fisiológicas. Estes autores também ressaltaram, a partir da teoria baseada no modelo cognitivo social, que o comportamento alimentar resulta da interação entre mente, corpo e sociedade, por exemplo, um indivíduo decide restringir todos os alimentos que ele considera como não adequados na busca por modificar a forma do seu corpo e assim se enquadrar nos padrões estéticos impostos pelo ambiente que ele está inserido. Assim, avaliar a ingestão alimentar deste indivíduo pouco proporcionaria ganhos para compreender seu comportamento, sendo necessário investir na avaliação de aspectos prévios, ou seja, identificar porque ele adotou tal conduta.

Freitas e colaboradores (10) destacam que, em geral, as pesquisas desenvolvidas no campo da Nutrição expressam dados predominantemente baseados no discurso biomédico, ou seja, são centrados na avaliação do consumo nutricional dos indivíduos. Este fato limita a investigação do processo alimentar, pois desconsidera outros fatores importantes tais como o estado emocional e a cultura do indivíduo. Em virtude deste cenário limitante, a prática clínica dos profissionais da Nutrição acaba por ser influenciada em investigar apenas “o que” e “quanto” o indivíduo come deixando de lado o “porque”, “onde”, “com quem” e “como” se come aqueles alimentos, em outras palavras, avalia o quadro clínico nutricional atual do paciente e desconsidera a trajetória evolutiva que fez com que ele chegasse a tal resultado (5). Batista e Lima (6) ressaltam que o aumento do consumo de alimentos saudáveis, geralmente, ocorre na presença de pessoas que não fazem parte do grupo familiar sendo, portanto, um comportamento que pode estar condicionado a ocasião social e não ao conteúdo nutricional do alimento. Neste contexto, pode-se notar que avaliar o consumo alimentar das pessoas, apesar de ser importante, representa apenas uma pequena parte do processo alimentar do indivíduo sendo necessário, para uma compreensão mais ampla, abordar outros aspectos. Assim, de acordo com o comentário de Baranowski (11) sobre a crise na nutrição comportamental e atividade física”, é essencial realizar pesquisas inovadoras e guiadas para construir bases de conhecimento visando desenvolver intervenções com maior eficácia e efetividade na área da Nutrição.

A Nutrição e a Psicologia apesar de serem vistas como campos distintos compartilham de um mesmo objetivo que é trabalhar na modificação de comportamentos disfuncionais que impactam diretamente na vida das pessoas (12). Com este vínculo de áreas, o desenvolvimento e a adaptação de teorias e técnicas visando auxiliar na mudança do comportamento alimentar ganharam espaço em âmbito clínico e estão sendo cada vez mais utilizadas (1). Contudo, sabe-se que para atuar de modo responsável e ético é importante implementar em consultório apenas os protocolos que sejam sustentados por evidências científicas. Horne (13) em recente publicação na Revista Internacional de Saúde Pública (Int J Public Health) ressalta que a “Nutrição Baseada em Evidências Científicas” é uma forma de procurar os melhores resultados existentes na literatura especializada para colocar em prática as orientações/recomendações nutricionais visando melhorar o quadro clínico de um paciente bem como prevenir o desenvolvimento de doenças na população. Além disso, o autor destaca que a ciência não deve ser confundida com um sistema de debate de opiniões entre o público leigo, as autoridades em saúde e os pesquisadores, uma vez que trata-se de um conjunto de dados com o objetivo de aperfeiçoar o conhecimento de uma determinada área. Diante destas informações é essencialmente importante que as pesquisas científicas sejam realizadas de modo adequado, principalmente, quando da avaliação do comportamento alimentar das pessoas.

O campo da Nutrição ainda carece de pesquisas bem delineadas e com amostras adequadas para investigar o comportamento alimentar, especialmente, em âmbito brasileiro. Diversos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), Dissertações de Mestrado, Teses de Doutorado e demais formas de trabalhos que objetivam produzir ciência não estão avaliando de forma apropriada este conceito o que tem proporcionado em publicações pouco consensuais. Existem diferentes métodos e instrumentos que podem ser utilizados para investigar o comportamento alimentar (14). Apresenta-se a seguir algumas opções que podem ser úteis na coleta de dados.

  • Relatos de observações: nesta categoria, o pesquisador faz parte de um grupo social por um determinado período a fim de compreender e descrever detalhadamente todo o desfecho alimentar daquela população (ex., Relatos de Casos);
  • Instrumentos psicométricos: trata-se de um conjunto de itens ou questões com adequada validade e confiabilidade que pode ser aplicado por meio de entrevistas ou autopreenchimento para coletar dados de percepções, sentimentos e comportamentos das pessoas sobre a própria alimentação (ex., Three-factor Eating Questionnaire-TFEQ-18);
  • Anamnese alimentar: é uma forma de obter informações detalhadas da alimentação do indivíduo onde ele anota os alimentos ingeridos e a quantidade, bem como suas emoções e percepções de sensações físicas antes, durante e após o consumo (ex., Diário Alimentar);
  • Entrevistas semiestruturadas: são questionamentos individuais ou coletivos (perguntas abertas), que permitem verificar as representações conscientes e inconscientes que o indivíduo tem em relação à alimentação (ex., Grupos Focais).

Portanto, pode-se observar que as ferramentas mencionadas anteriormente incluem diferentes abordagens sendo necessário selecionar cuidadosamente a que melhor se enquadra no objetivo do estudo projetado. Além disso, nota-se que a ingestão alimentar pode fazer parte da investigação do comportamento alimentar, mas ela não é o foco central da avaliação.

Ainda, vale mencionar sobre a importância do cuidado quanto à análise dos dados obtidos e a escolha do desenho de estudo a ser desenvolvido para investigar o comportamento alimentar. Cabe ao pesquisador utilizar corretamente as análises que sejam mais apropriadas aos dados (qualitativos e/ou quantitativos) para que assim sejam apresentados resultados confiáveis e úteis para a comunidade clínica e acadêmica. Além disso, a inclusão de testes estatísticos mediante uso de dados quantitativos é essencialmente importante para sustentar as fundamentações teóricas (15). Sobre os tipos de estudo, predominantemente, encontra-se investigações transversais que buscam avaliar o comportamento alimentar das pessoas. Estes estudos fornecem evidências relevantes para levantar hipóteses que devem ser testadas posteriormente em ensaios clínicos, uma vez que pesquisas transversais não permitem inferir relações de causa e efeito. Alguns relatos de casos também são apresentados na literatura, mas são válidos apenas como ponto de partida para a realização de pesquisas mais amplas. Já os ensaios clínicos randomizados, que ocupam o nível mais alto de evidência, são escassos no âmbito da avaliação do comportamento alimentar e estes devem ser encorajados na comunidade científica (13). Assim, ressalta-se a necessidade de se realizar pesquisas para avaliar o comportamento alimentar com devida atenção quanto a elaboração conceitual, desenvolvimento metodológico e estratégia analítica objetivando produzir conhecimento de alta qualidade que contribua para o melhor entendimento da alimentação das pessoas.

Frente ao exposto anteriormente, nota-se a relevância do desenvolvido de estudos integrados e sofisticados que busquem contemplar questões biológicas, cognitivas, sociais, ambientais e psicológicas quando da avaliação do comportamento alimentar da população. Isso, sem dúvida, é um desafio, mas contribuirá para uma compreensão mais profunda e clara do comportamento alimentar o que consequentemente auxiliará clínicos nas tomadas de decisões a fim de que sejam mais conscientes e não baseadas em apenas uma única dimensão deste conceito que é multidimensional.

Wanderson Roberto da Silva (@nutri_wan)

Nutricionista e Pós-doutor em Comportamento Alimentar (UNESP)

 

Referências

  1. Alvarenga M, Figueiredo M, Timerman F, Antonaccio C. Nutrição Comportamental. São Paulo, Brasil: Manole; 2019. 606 p.
  2. Viana V. Psicologia, sáude e nutrição: contributo para o estudo do comportamento alimentar. Aná Psicológica. 2002;20(4):611-24.
  3. Marchioni DML, Gorgulho BM, Steluti J. Consumo alimentar: guia para avaliação. Barueri/SP: Manole; 2019. 300 p.
  4. Borges CA, Rinaldi AE, Conde WL, Mainardi GM, Behar D, Slater B. Dietary patterns: a literature review of the methodological characteristics of the main step of the multivariate analyzes. Rev Bras Epidemiol. 2015;18(4):837-57.
  5. Silva I, Pais-Ribeiro JL, Cardoso H. Porque comemos o que comemos: determinantes psicossociais da selecção alimentar. Psicol Saúde Doenças. 2008;9(2):189-208.
  6. Batista MT, Lima ML. Comer o quê com quem?: influência social indirecta no comportamento alimentar ambivalente. Psicol Reflex Crit. 2013;26(1):113-21.
  7. Eguilaz MHR, Aldabe BMM, Almiron-Roig E, Perez-Diez S, Blanco RSC, Navas-Carretero S, et al. Multisensory influence on eating behavior: hedonic consumption. Endocrinol Diabetes Nutr. 2018;65(2):114-25.
  8. Furtjes S, King JA, Goeke C, Seidel M, Goschke T, Horstmann A, et al. Automatic and controlled processing: implications for eating behavior. Nutrients. 2020;12(4).
  9. Lewis C, Sims L, Shannon B. Examination of specific nutrition/health behaviors using a social cognitive model. J Am Diet Assoc. 1989;89(1):194-202.
  10. Freitas MCS, Minayo MCS, Fontes GAV. Sobre o campo da alimentação e nutrição na perspectiva das teorias compreensivas. Ciênc Saúde Coletiva. 2011;16(1):31-8.
  11. Baranowski T. Crisis and chaos in behavioral nutrition and physical activity. Int J Behav Nutr Phys Act. 2006;3:27.
  12. Klotz-Silva J, Prado SD, Seixas CM. Comportamento alimentar no campo da alimentação e nutrição: do que estamos falando? Physis. 2016;26(4):1103-23.
  13. Horne JR. Are we losing sight of the meaning of “evidence-based nutrition?”. Int J Public Health. 2020.
  14. Poulain J, Proença RPC. Reflexões metodológicas para o estudo das práticas alimentares. Rev Nutr. 2003;16(4):365-86.
  15. Volpato GL. Ciência, da Filosofia à Publicação. São Paulo: Best Writing; 2019. 312 p.

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