Notamos até aqui dizer que vício em comida existe depende de como os pesquisadores definem vício; e mais do que isso, como definem vicio em comida, especificamente. Está questão não está próxima de ser resolvida dada a heterogeneidade e até generalizações nas definições. Há de se considerar que a depender da classificação, o comer compulsivo pode ser entendido como vício em comida, mesmo que não se tratem das mesmas coisas, podem se sobrepor a depender do critério que se utiliza para classificação de vício.
Nesse sentido, seja o fenômeno classificado como vício ou como compulsão alimentar, qual a vantagem em se passar a utilizar o termo “vício em comida”? Parece desnecessário incluir essa definição de vício como uma nova desordem de uso por substância em futuras diretrizes diagnósticas, já que o feito se sobreporia a critérios já presentes. Além disso, ao falar de obesidade, como alguns poucos indivíduos com obesidade apresentam certos comportamentos que poderiam ser classificados por alguns pesquisadores como vício em comida (mesmo havendo controvérsias), utilizar a perspectiva do vício seria inapropriada para grande parte dos indivíduos, já que nem todos tem os tais comportamentos chamados de vício. E mais do que isso: abordagens preventivas ou tratamentos inspirados pelo campo de estudos do vício, não requerem que o indivíduo seja diagnosticado com vício em comida para que estes tratamentos sejam implementados¹. Por fim, falar de vício em comida, apesar de em algumas discussões ser um modo de diminuir o estigma para a obesidade e a culpa individual, do modo como o assunto tem sido apropriado popularmente, pode na verdade ser mais um fator para estigmatização da obesidade. César Henrique (@nutri_cesar)

Referências:
1. Meule A. A Critical Examination of the Practical Implications Derived from the Food Addiction Concept. Curr Obes Rep. 2019;8(1):11–17. doi:10.1007/s13679-019-0326-2

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