Neste 4º texto, vamos focar na atenção aos modelos de estudo. É comum que a retórica da existência de vício em comida se baseie em estudos com modelos animais e com desenhos experimentais que induzem situações artificiais de busca por comida. Nesse sentido, é comum nestes modelos, que haja exposição destes animais a ambientes muito pobres, que contém apenas o alimento como objeto de interação. Além disso, os animais ficam sujeitos a condições de estresse, com privação de sono, ou privação de alimentos. Há de se esperar que tais ambientes levem a um aumento de consumo de alimentos palatáveis, o que não se verifica, mesmo para o uso de álcool e drogas, quando animais são expostos a ambientes mais ricos e com possibilidade de se exercitarem1 . Além deste fato nos chamar a atenção para conferir tanto o modelo experimental como o protocolo que é usado, antes que saiamos apoiando a existência de vício em comida, nos é apontado ainda uma 2ª discussão: a restrição alimentar pode ser um importante fator que leva a compulsão alimentar (o que alguns poderiam chamar de vício em comida) e não a comida em si. Existem evidências de que a privação alimentar seletiva aumenta a busca pelas comidas restritas em indivíduos mais vulneráveis, a exemplo de estudo que impôs restrição de chocolate (mas sem restringir demais alimentos) em que os indivíduos apresentaram maior “fissura” por chocolate nas 2 semanas subsequentes² e o que se aproximaria muito da ideia do comer desinibido, comportamento alimentar de compulsão pós privação3. Vemos, portanto que o alimento em si nesta discussão, não levou por si só ao aumento do que alguns chamariam de vício em comida (o que mais ponderadamente chamaria até aqui de comer exagerado) mas sim, a privação o fez.

Vejo vocês no próximo e último post. Até lá! César Henrique (@nutri_cesar)

Referências
1. Alonso-Alonso M, Woods SC, Pelchat M, et al. Food reward system: current perspectives and future research needs. Nutr Rev. 2015;73(5):296–307. doi:10.1093/nutrit/nuv002
2. Richard A, Meule A, Friese M, Blechert J. Effects of chocolate deprivation on implicit and explicit evaluation of chocolate in high and low trait chocolate cravers. Front Psychol. 2017;8(1591):1–11. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.01591
3. Polivy, J., & Herman, C. P. (1985). Dieting and binging: A causal analysis. American psychologist, 40(2), 193.

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