Falar de comer, além de tantas outras razões subjacentes, é um tópico em constante discussão porque comer é uma atividade essencial inerente a nossa sobrevivência. Todo mundo precisa comer e, em condições adequadas, come todo dia – mesmo antes de termos a profissão de nutricionista, acredite! De todo modo, como nutricionistas, temos um papel importante na sociedade, pois trabalhamos com esta essencialidade diária e comum a todos.

Antes da nossa profissão, as pessoas já comiam (e talvez até sem tanta neura como nos dias atuais), mas alguns problemas de saúde, doenças carenciais, etc. foram aparecendo e nossa profissão nasceu da necessidade primária de tratar e prevenir doenças. A base foi então eminentemente biológica, e não por acaso carregamos isto fortemente no curso de nossa formação. Somos ensinados essencialmente a olhar para o que as pessoas comem. “Ah, esta pessoa está comendo isso, mas deveria substituir por aquilo. Não deveria comer isso, a recomendação diz que é melhor aquilo”. Ou até ainda: “Nossa, ela come muito bem, sempre opções saudáveis” sem atentar para um plano de fundo que pode estar bem distante das facetas do entendimento de saúde na sua integralidade. E mesmo em pesquisa, temos uma quantidade já substancial de dados nos mostrando o que as pessoas comem, nos expressos dados de consumo alimentar. Os dados, as recomendações, o que os nutricionistas sabem e dizem, no entanto, pouco tem mudado os padrões de consumo alimentar que é marcado por um consumo cada vez mais distante dos aspectos culturais e tradicionais, e classicamente denominado de consumo alimentar não saudável e inadequado (isso sem mencionar a relação com a comida!) . E o que será que fica faltando, então?

Como profissionais, “sabemos” e recomendamos o que é mais apropriado (ou como popularmente se fala: mais saudável) comer, mas ainda assim não vemos grandes mudanças no que as pessoas comem. Uma das explicações se dá porque existe algo que antecede o que as pessoas comem e isto é o porquê elas comem – muito menos explorado. E é sobre os porquês que vamos falar um pouquinho aqui hoje.

Existe uma infinidade de razões pelas quais comemos o que comemos, que vão ser cientificamente organizadas nas chamadas motivações para comer ou determinantes de escolha alimentar. Pensando em motivações, que podem ser brevemente definidas como processos que iniciam, direcionam e podem sustentar nossas ações, basicamente temos dois tipos principais: as motivações intrínsecas (que como o nome sugere, corresponde a motivações inerentes ao próprio indivíduo, por exemplo: comer porque acha gostoso); e as motivações extrínsecas (que são geradas em resposta à algo externo, por exemplo: comer porque o nutricionista prescreveu, porque foi influenciado digitalmente por alguém, e por aí vai). Estes dois tipos de motivações, obviamente, interagem entre si e há ainda a ausência de motivação (desmotivação).

Sempre que nos referimos às motivações para comer algo, é importante entender que a motivação além de bastante subjetiva é também dinâmica/situacional e, por isso, não se traduz automaticamente no que será escolhido e consumido. Assim, eu posso declarar que sou motivado a comer principalmente pelo gosto de uma comida, mas vou a um restaurante em que aquela comida está num preço muito alto e ali escolho uma outra opção. Este é um elo para tratar de todos os determinantes de escolha alimentar, que estão intimamente ligados às motivações e podem ser muitas vezes reflexos automáticos e habituais dos quais nem sempre estamos plenamente cientes.

Mas sobre eles falaremos no próximo post. Até lá!

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