Bom, no último post falamos que comemos por inúmeras razões expressas pelas motivações, altamente subjetivas e dinâmicas, e que estas estão fortemente conectadas aos determinantes de escolha alimentar, certo? Seguindo então, só para te dar um pouco da dimensão de como temos tantos fatores que podem determinar o que comemos, podemos didaticamente separá-los de acordo com aqueles mais relacionados aos alimentos (ex.: sabor, aparência, origem, preço, valor nutricional); os relacionados a própria pessoa (idade, gênero, condição de saúde, preferências, crenças, expectativas, experiências, escolaridade, renda); e os relacionados ao ambiente (como limpeza, conforto, disponibilidade, presença familiar, amigos, mídia, cultura). Estes são apenas alguns exemplos, todavia suficientes para dar uma ideia do porquê se fala em considerar o que, como, quando, onde e com quem as pessoas comem, já que estas são as bases das motivações que se relacionam mutuamente e tomam lugar a cada escolha que fazemos.

Diante disso, não parece ser simplista demais nós, como nutricionistas, acharmos que dá para mudar perfis de consumo alimentar apenas prescrevendo/recomendando o que as pessoas devem comer? E ao vermos como são inúmeras as razões, não é sugestivo também que evitar explorar os porquês seja uma alternativa até mais fácil? Porque, certamente, ao mudarmos nossa abordagem de só olhar o que para buscarmos entender os porquês, teremos um trabalho bem mais árduo. Pense que muitas vezes o paciente nem conseguirá a princípio identificar o porquê de consumir uma comida, ou o porquê de não consumir outras. O “o que” é facilmente visível, já “o porquê” nem sempre o é, embora esteja sempre lá regendo o que comemos. Avaliar as motivações exige ainda retornar ao princípio da individualidade, pois cada um carrega suas próprias razões, e a individualização é sempre mais puxada, né? Principalmente no contexto atual de generalizações, no qual se busca encontrar e oferecer soluções únicas que funcionem para todos.

Mas bem, e como buscar os porquês se apresento que as motivações são subjetivas e difíceis de visualizar? Como avaliar o que não posso ver? A resposta é direta: por meio de relato verbal. Em se tratando de uma avaliação individual, é um processo de ajudar o paciente a pensar e identificar as razões que o levam ou não ao consumo alimentar. Se o contexto é de pesquisa, os relatos podem vir de forma qualitativa por meio de entrevistas, por exemplo; e/ou de uma forma mais quantitativa por meio do uso de questionários ou escalas, como os disponíveis com adaptação e validação para uso no Brasil: o questionário de escolha alimentar [1] e a escala de motivações para comer [2] – aqui, sempre ciente de que o relato, não necessariamente significará a ação.
Note que nossa discussão até aqui foi feita de forma bem geral, sem mencionar teorias e modelos. Nem citei também sobre as influências do estado de humor, sobre o fato de vivermos sob o dilema de ter que escolher algo dentre uma infinidade de opções até do mesmo alimento, do fato de sermos agrupados e identificados de acordo com nossas escolhas, sob pressão estética, do que é a super opção da vez, do que é sustentável, do que é nem ter possibilidades de escolha… Tudo isto porquês, complexos demais, mas sempre presentes e indispensáveis ao se pensar em processos de mudanças, quando necessário.
Como o tema é bastante fértil, deixo algumas referências iniciais para quem quiser se debruçar mais [3-7]. E bem longe de esgotá-lo, o texto é muito mais um convite para antes de julgarmos e querermos mudar o que as pessoas comem, darmos um passo para trás nos questionando e buscando compreender o porquê elas comem o que comem. E aí, topa o convite?

Por: Jéssica Maria Muniz Moraes

Referências
[1] Heitor F, et al. Tradução e adaptação cultural do questionário sobre motivo das escolhas alimentares (Food Choice Questionnaire – FCQ) para a língua portuguesa. Ciênc. Saúde Coletiva. 2015, vol.20, n.8, pp.2339-2346. https://doi.org/10.1590/1413-81232015208.15842014.
[2] Moraes JMM, Alvarenga MS. Adaptação transcultural e validade aparente e de conteúdo da versão reduzida da The Eating Motivation Survey (TEMS) para o Português do Brasil. Cad. Saúde Pública. 2017, vol.33, n.10, e00010317. https://doi.org/10.1590/0102-311×00010317.
[3] Alvarenga MS, Koritar P, Moraes JMM. Atitude e comportamento alimentar – determinantes de escolhas e consumo. In: Alvarenga MS, Figueiredo M, Timerman F, Antonaccio C. Nutrição Comportamental. 2ed. Barueri: Manole; 2019. p.25-56.
[4] Moraes, JMM. Por que as pessoas comem o que comem? Comparação das motivações para comer entre dois contextos socioeconômicos díspares no Brasil. 2017. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo. doi:10.11606/D.6.2018.tde-31012018-090233. Acesso para download em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6138/tde-31012018-090233/pt-br.php
[5] Jomori MM, Proença RPC, Calvo MCM. Determinantes de escolha alimentar. Rev Nutr. 2008; 21(1):63-73. https://doi.org/10.1590/S1415-52732008000100007.
[6] Nestle M, et al. Behavioral and social influences on food choice. Nutr Rev. 1998;56(5):50-64. https://doi.org/10.1111/j.1753-4887.1998.tb01732.x
[7] Pollan M. O Dilema do Onívoro: Uma história natural de quatro refeições. Intrínseca. 2007. 468p.

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