Nós raramente questionamos o modelo de atuação que nos foi ensinado na faculdade, também poucas vezes temos a oportunidade de refletir sobre conceitos, diretrizes ou regras estabelecidas como verdades – por órgãos, conselhos e associações regulamentadoras. Possivelmente nós já estamos anestesiados e treinados para seguir sem contestar.

A medida em que exercitamos o pensamento crítico, podemos debater e argumentar outros pontos de vista. Seria muito pretencioso acreditar que nesse mundo cheio de diversidades hajam tantas verdades absolutas no campo da saúde/nutrição (algumas elaboradas há muitas décadas).

Para estimular esse pensamento proponho hoje a reflexão sobre o conceito da organização da saúde (OMS) sobre o que é saúde: “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade. ” Elaborado em 1947, a princípio um grande avanço aos modelos biomédicos, buscava um alinhamento à abordagem biopsicossocial e tinha por objetivo contribuir com uma prática positiva em saúde.

Entretanto, ao analisar a inquietante definição (vista como meta) ela soa um tanto quanto utópica. Digo isso porque, qual ser humano é capaz de atingir esse estado completo de saúde? A vida influi em um estado dinâmico das coisas e não estático, de modo que ainda que fosse possível atingir esse estado completo, ele possivelmente não seria permanente. E então nesse caso, estaríamos doentes?

(não estamos nem discutindo a amplitude da inserção disso em culturas diferentes).

Leonardo Boff, grande filósofo brasileiro afirma que a saúde não é um estado, mas sim um processo permanente de busca, um equilíbrio dinâmico de todos os fatores que compõem a vida humana. Nesse sentido, a saúde é um processo complexo, viver também é sinônimo de adoecer eventualmente. Ter habilidades e capacidades para enfrentar as doenças seria então mais importante do que não adoecer, até porque é improvável passar pela vida sem conviver com doenças, dores ou sofrimentos.

Atualmente a sociedade compreende a saúde em conjunto com o conceito de corpo magro, jovem e belo. Como visto no primeiro texto, o ‘estilo de vida saudável’ é um produto da contemporaneidade que induz as pessoas a buscarem por esse estado perfeito de corpo e saúde.

Nessa corrida desenfreada a qualquer custo, comportamentos de risco são tomados e medidas extremas como: dietas restritivas; exercícios em excesso; uso de medicações inadequadas; jejuns; procedimentos invasivos entre outros, são práticas comuns e validadas socialmente. A medida que esses comportamentos geram resultados ineficazes, ou não são sustentáveis, criam uma sensação de fracasso e distanciam cada vez mais a possibilidade de uma relação positiva com o corpo e a comida.

Outro ponto a ser analisado é que ao se ter um conceito de saúde e de corpo tão perfeitos e distantes da realidade de cada um, ao invés de servir como um guia, paradoxalmente pode criar um abismo e consequentemente, uma paralisação. Aquela prática de ‘chutar o balde’, viver os extremos e as compensações é a clara ideia de tudo ou nada em que as pessoas estão presas. Eu te pergunto: Será que esse conceito utópico contribui ou afasta ainda mais a possibilidade de uma vida saudável? 

Se nós tivéssemos um conceito e uma prática que aproximasse e contribuísse com o engajamento aos comportamentos que geram saúde, as pessoas seriam menos extremistas e mais conectadas à sua realidade e suas reais capacidades?

Uma abordagem pouco conhecida, a Salutogênese, propõem que o fundamental é compreender as causas que conduzem a uma boa saúde; com ênfase na relação do indivíduo e seu meio, de modo que possa adquirir e desenvolver habilidades e competências para se relacionar da melhor maneira com os agentes que podem perturbar a saúde. Em resumo, uma abordagem que desperta a potência de cada ser humano, criando um sentido de coerência singular no qual a saúde é um recurso para a vida e não um objetivo do viver.

Pensar a nutrição clínica nesse cenário implicaria em entendermos que nunca devemos partir do princípio que o indivíduo não tem nenhum conhecimento ou não é capaz de cuidar de si; além do mais, a alimentação ideal talvez seja apenas conceitual, assim como o conceito da OMS.

A prática de uma alimentação saudável deveria figurar na lista de comportamentos sustentáveis e coerentes com a vida de cada pessoa. Para isso, é essencial que haja um processo de aprendizado gradual que pode ser iniciado em qualquer ciclo da vida (crianças, adolescentes, adultos e idosos).

O nutricionista é o facilitador do processo e precisa ajudar cada pessoa a identificar suas dificuldades e também suas potencialidades, sempre em sintonia com seus valores pessoais. Na prática, precisamos também valorizar cada passo em direção à saúde e não nos restringir apenas à parâmetros, índices, números e dados meramente técnicos. A escuta é talvez nossa maior ferramenta na clínica para compreender as subjetividades inerentes à saúde, à doença, à alimentação, no relacionamento com corpo, enfim na vida.

Para que serve a nossa saúde senão para viver a nossa vida? Precisamos de menos bem-estar e mais bem viver.

 

Leave a Reply

Demo Slot Gate of Olympus Slot Demo Daftar Server kamboja Daftar Server thailand Daftar Server myanmar Daftar Server vietnam Daftar Server malaysia Daftar Server filipina Daftar Server jepang Daftar Server singapore Daftar Server spain Daftar Situs taiwan Daftar Situs thailand Daftar Situs malaysia Daftar Situs jepang Daftar Situs swiss Daftar Situs vietnam Daftar Situs singapore Daftar Situs peru Daftar Situs china Daftar Situs hongkong Daftar Server Luar Daftar Server Thailand Sbobet88 Daftar Server thailand Daftar Server jepang Daftar Server myanmar Daftar Server Thailand Mega Roulette Pragmatic Daftar Server Kamboja Daftar Server Malaysia Akun Pro Myanmar Akun Pro Jepang Akun Pro Rusia Situs Luar Negeri

Slot Server Luar Bocoran Slot Gacor Judi Bola Akun Pro Taiwan Situs Slot Dana Live Casino Indonesia Slot Server Thailand Kamboja Pay4d Situs Slot Gacor RTP Live Slot Akun Pro Kamboja akun pro kamboja Live Casino Online Bocoran Slot Gacor Akun WSO Slot