Em momento de pandemia e adversidade, o discurso persecutório e de alerta em relação a alimentação “saudável” continua, mas agora em versão isolamento social. Uma rápida pesquisa em mídias sociais e portais de notícias com os termos “comer” e “isolamento social” traz manchetes como “como parar de comer o tempo todo durante o isolamento social” ou “10 dicas para não engordar durante a quarentena”. Ótimos panos de fundo para que seja retomada a retórica de que comida vicia em reportagens como “Alguns alimentos podem viciar: entenda como e conheça os mais perigosos”, publicada recentemente, em abril, em portal de notícias. Mas será que realmente podemos dizer que comida vicia? Em reportagens do tipo, é nítida a falta de intimidade com os termos, definições e discussões que envolvem a psicologia e neurofisiologia da alimentação. E em meio a saltos de raciocínio e imprecisões, os textos nestes portais ainda incluem artigos científicos¹ que, ou não são suficientes para atestar que comida vicia, como mostram revisões recentes e ponderadas sobre o tema², ou trazem artigos que não focam em atestar que comida vicia, mas sim tentam classificar o que são alimentos hiperpalatáveis³. Mas afinal de contas, por que não é possível dizer que comida vicia? Vamos falar sobre alguns pontos ao longo de 5 postagens (pois essa discussão mereceria um capítulo de livro!!).
1) a definição de vício é considerada de modo bastante difuso nos trabalhos que buscam atestar que comida vicia5. Ela significa diferentes coisas para diferentes pessoas, sejam elas leigas ou não. Dentre os não leigos, muitos utilizam para esta classificação a “Yale Food Addiction Scale” uma escala que claramente atribui critérios diagnósticos de bulimia para o que é chamado pelos autores de vício em comida2,4. Mas vício e bulimia (que inclui a compulsão alimentar) são a mesma coisa? Parece que não. E ainda que fossem, então qual a vantagem da definição de vício em comida? São questões largamente discutidas sobre o tema 2,4.
Vejo vocês na próxima postagem.
Por Cesar Henrique Moraes @nutri_cesar em participação especial

 

  1. DiFeliceantonio AG, Coppin G, Rigoux L, et al. Supra-Additive Effects of Combining Fat and Carbohydrate on Food Reward. Cell Metabolism. 2018 Jul;28(1):33-44.e3. DOI: 10.1016/j.cmet.2018.05.018.
  2. Fletcher, P.C., Kenny, P.J. Food addiction: a valid concept?. Neuropsychopharmacol 43, 2506–2513 (2018).
  3. Fazzino, T.L., Rohde, K. and Sullivan, D.K. (2019), Hyper‐Palatable Foods: Development of a Quantitative Definition and Application to the US Food System Database. Obesity, 27: 1761-1768. doi:10.1002/oby.22639
  4. Meule A. A Critical Examination of the Practical Implications Derived from the Food Addiction Concept. Curr Obes Rep. 2019;8(1):11–17. doi:10.1007/s13679-019-0326-2
  5. Alonso-Alonso M, Woods SC, Pelchat M, et al. Food reward system: current perspectives and future research needs. Nutr Rev. 2015;73(5):296–307. doi:10.1093/nutrit/nuv002

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