Começamos hoje uma série especial de 4 textos, por Marcela Vilela, baseados em seu mestrado em Ciências Sociais – Reflexões sobre o controle de si versus o cuidado de si no campo da nutrição na Universidade Federal do Espírito Santo.

 

A origem da Nutrição – Modelo CONTROLADOR

Quando entramos na graduação de Nutrição estamos cheios de expectativas sobre como ajudar as pessoas a se alimentar de uma forma melhor, a cuidar delas. Iniciamos então uma jornada que está imersa em um modelo biologicista, muito mais atento às doenças do que aos doentes. Isso se justifica devido à intima ligação entre Nutrição e Medicina.

Esse paradigma hegemônico chamado de Cartesiano se constituiu a partir de princípios físicos e matemáticos. Sim, a ciência vivia um período que precisava ser racionalizada, excluindo toda a subjetividade e abandonando crenças mágicas e religiosas. Dentre as características que se destacam estão: o tecnicismo; o saber fragmentado; as relações hierárquicas e impessoais, a prática prescritiva e um conceito de saúde estático. Isso tudo porque partia do princípio de que o corpo era similar à uma máquina, precisava ser dividido em partes para sua compreensão, necessitava de ajustes constantes, basicamente uma busca pelo funcionamento ‘ideal’.

Ao refletirmos sobre isso, a partir de um conceito do filósofo Michel Foucault, o modelo pode ser descrito como controlador. Segundo ele, todo saber está associado a alguma forma de poder, e o poder se produz na relação entre os corpos.

Dessa maneira, o controle se efetiva a partir do corpo, nosso instrumento de vida, tido como um mero objeto que deveria ser sempre produtivo. Esse paradigma ganhou forças ao longo do tempo, pois sua concepção tinha total compatibilidade com o capitalismo. Em plena revolução industrial ter um corpo forte e produtivo era o ideal de saúde incentivado.

Estamos vivendo em um cenário contemporâneo e agora o que é enfatizado é a cultura de um corpo magro, jovem e belo: o corpo perfeito. Permeado pelo mito da beleza e pelo ‘estilo de vida saudável’ a população busca a ‘melhor versão de si mesma’, ou seja, sujeitos empreendedores de si mesmos. As palavras chaves da nossa época são: projeto, iniciativa e motivação ou poderíamos dizer força, foco e fé?!

Essa continua sendo uma forma de controle da população não mais por coerção, mas pela docilização. O que estamos vendo é a internalização do controle. As indústrias em conjunto com a mídia exercem um papel importante: incentivam o consumo de alimentos industrializados (afinal geram mais lucros); constroem modos de ser e viver; e reforçam padrões corporais inatingíveis. Em resumo, a partir de insatisfações geram demandas, e consequentemente, consumo (o capitalismo agradece).

Talvez você esteja se perguntando o que tudo isso tem a ver com a prática do nutricionista. Nós também desempenhamos uma função importante nesse cenário. Herdamos do modelo biologicista características que se perpetuam, como: a medicalização da alimentação; o nutricionismo; a necessidade do especialista (detentor do saber); a relação hierárquica, tecnicista e fragmentada (autoridade); a uniformização das necessidades nutricionais; prescrições e imposição de regras externas que em sua maioria não são compatíveis com a vida real de cada pessoa.

Nesse sentido, o nutricionista incentiva a alimentação saudável ideal, ‘motiva’ o paciente para a mudança dentro de uma lógica restritiva; endossando esse discurso de estilo de vida saudável – o produto mais vendido na atualidade.

O paciente por sua vez, ocupa uma posição de passividade, incapaz de cuidar de si mesmo. Reflexo de uma autoridade que fiscaliza seu prato; policia seu peso; e impõe a busca por uma saúde irreal. Em decorrência disso, o indivíduo é incapaz de avaliar sua própria fome, seus sinais de saciedade, seus gatilhos alimentares ou a simples decisão do que comer no almoço. Contudo, também é responsabilizado pelo seu próprio adoecimento ou fracasso.

A convivência das regras rígidas sobre saúde e alimentação com demandas impossíveis de serem atingidas e sustentadas, e, do outro lado, o incentivo aos excessos, ao prazer hedônico cria um paradoxo e leva a população a um grande mal-estar e, por consequência, um abismo entre o ideal e o real – uma ruptura com a saúde.

Além disso, o consultório do nutricionista é repleto de símbolos que podem ilustrar o controle e o poder, a começar pela relação de dominação com o paciente. Dentre outros elementos, destaca-se: o jaleco; o diploma na parede; os livros técnicos na prateleira; o adipômetro; a fita métrica; a balança; a dieta prescrita; o momento da avaliação física; a ficha de anamnese que mais se assemelha a um interrogatório e também o ambiente do consultório: asséptico; formal; separados e distantes – profissional e paciente se colocam em posições de embate, neutralidade e pouco acolhimento.

Isso não significa que se você usar algum desses objetos o configurará como um mal nutricionista, não há totalidade. Mas refletir sobre o significado deles pode contribuir para repensarmos o campo da nutrição. Através da profissão, podemos exercer um papel meramente técnico ou ir além; exercer uma função sociopolítica e responsável para não reforçar práticas controladoras, estigmas, preconceitos, e toda a cultura que envolve a redução da alimentação com fins nutricionais e estéticos.

Em resumo, nossas práticas e condutas clínicas não tem produzido resultados positivos na saúde das pessoas, afinal é crescente os índices de doenças crônicas, problemas relacionados ao corpo e a comida de uma maneira geral. Nós sabemos os comportamentos ideais para promoção e manutenção de uma boa saúde, mas tentar controlar o processo não é o caminho. Talvez, precisemos abrir mão e flexibilizar o que é ser nutricionista.

A tomada de consciência é o primeiro passo em direção à mudança. Que nutricionista é você? Não busque definições, porque definir seria dar o fim, e nós estamos apenas começando.

 

 

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