Você sabe a diferença entre eficiência, eficácia e efetividade e qual a relação desses conceitos com as dietas restritivas?

(por Cesar Moraes, doutorando em Nutrição em Saúde Pública na FSP-USP)

Em tempos em que a interpretação das informações a respeito de nutrição é cada vez mais imprecisa e extremista, vale o aprofundamento nas diferenças entre eficiência, eficácia e efetividade.

Artigo publicado em setembro de 2018 na revista Lancet pôs em xeque as dietas “low carb” (referências no fim do texto), mas mesmo assim, é comum que apareçam devotos da mesma, relatando ter colhido benefícios ao realizá-la.

Este fato não se restringe a dieta low carb, mas se estende a todas as restrições que envolvem as discussões quanto a alimentação. Dentre outras ponderações, a grande questão ausente nos debates acalorados em prol desta ou daquela nova dieta, método ou conduta, é que não se considera a concepção do que é eficiência, eficácia e efetividade.

EFICIÊNCIA diz respeito a produção de um resultado qualquer a partir de uma intervenção, qualquer que seja esta intervenção. EFICÁCIA diz respeito a um resultado produzido que atinge uma meta esperada; seria o resultado ótimo. Por fim a EFETIVIDADE diz respeito a aplicabilidade dos resultados em escala populacional, ou seja, falando em termos de pesquisa, uma validade externa dos resultados.

Trazendo as definições para os contextos da nutrição e das dietas, EFICIÊNCIA diz respeito ao indivíduo que relata ter perdido peso rapidamente com uma dieta da moda, seja lá qual for. A EFICÁCIA seria o indivíduo não apenas perder peso no curto período, mas fazê-lo de forma sustentada. E a EFETIVIDADE diria respeito a extrapolação do resultado relatado pelo indivíduo para o cenário da população: funcionar, em longo prazo, para todos.

Há uma nítida confusão entre estes conceitos quando as pessoas falam de “sucesso” das dietas da moda. Estas práticas podem até levar a uma perda de peso e, portanto, terem alguma eficácia – para poucos. Podem até ser efetivas, quando alguns – menos ainda – conseguem manter os resultados. Mas a grande questão é que a maioria das pessoas recupera o peso perdido, ou ganha ainda mais peso do que o inicial.

A ineficácia das dietas acontece quer seja por motivos fisiológicos ou comportamentais. E ainda, mesmo que alguém tenha sucesso duradouro com sua dieta restritiva, isso não quer dizer que essa seja a realidade da população – EFETIVIDADE. O estudo publicado na revista Lancet é um estudo epidemiológico, ou seja, direcionado à compreensão de populações. Nesse sentido, não se pode extrapolar imediatamente os resultados para indivíduos e o contrário também é verdade.   Em suma, as dietas podem, eventualmente, até ser efetivas, mas estão longe de ser eficazes e apresentar efetividade quando pensamos de fato em saúde e bem-estar.

Referencias

Luca Montesi, Marwan El Ghoch, Lucia Brodosi, Simona Calugi, Giulio Marchesini, and Riccardo Dalle Grave. Long-term weight loss maintenance for obesity: a multidisciplinary approach. Published online 2016 Feb 26. doi:  10.2147/DMSO.S89836. Diabetes Metab Syndr Obes. 2016; 9: 37–46.

 

Maclean PS, Bergouignan A, Cornier MA, Jackman MR. Biology’s response to dieting: the impetus for weight regain. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol. 2011 Sep;301(3):R581-600. doi: 10.1152/ajpregu.00755.2010.

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Erik Scott Blomain,  Dara Anne Dirhan, Michael Anthony Valentino, Gilbert Won Kim

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