Há uma grande discussão sobre a classificação dos alimentos em “bons e ruins”. E assim como o Comer Intuitivo1, modelo com base científica, que defende que é preciso se livrar do “policial alimentar” que faz justamente essas classificações e fazer as pazes com a comida, nós também abraçamos essa causa.

O artigo “Total Diet Approach to Communicating Food and Nutrition Information” 2, que é uma das posições da American Dietetic Association, também escreve que o valor de um alimento deve ser determinado de acordo com o contexto da dieta como um todo, porque classificar os alimentos como bons ou ruins pode desencadear comportamentos não-saudáveis.

Mas, e como ficam as guidelines, e recomendações? Incluindo o nosso Guia Alimentar para a População Brasileira? 3 Ele é o documento oficial que coloca diretrizes para uma alimentação saudável que devem ser seguidos, mas é preciso diferenciar guidelines e orientações de uma avaliação e discussão do comer com nossos pacientes.

Todos os nutricionistas e profissionais da área da saúde sérios e éticos devem orientar uma alimentação que siga as determinações, incluindo recomendar que se prefiram os alimentos frescos e naturais e que se reduzam os alimentos processados.

Se o profissional é responsável por decidir que alimentos entram em uma instituição e serão servidos, isto é especialmente importante. Mas, no atendimento clínico, esportivo, de saúde pública, na hora de conversar com o paciente sobre o que ele traz com relação a sua alimentação – incluindo os seus medos e as suas neuras – ter uma postura de fazer as pazes com a comida faz toda a diferença.

É claro que os alimentos são diferentes do ponto de vista nutricional, de processamento e de metabolismo, mas todos devem ser olhados como moralmente neutros, quando na HORA H, no TETE-a-TETE, estamos discutindo com um paciente o que ele comeu em determinada circunstância. Isto porque a demonização de um alimento causa medo, culpa e pode levar a exageros, compulsão e práticas compensatórias.

Obviamente se a alimentação de uma pessoa se mostra com grande frequência de alimentos processados, muito açúcar, gordura, isto deverá ser apontado e orientado; assim como se há baixo consumo de frutas, legumes e verduras. Mas quando, por exemplo, uma pessoa que tem um padrão alimentar adequado traz um consumo de um alimento que não é o mais fresco e considerado “mais saudável”, dizendo que fez algo “errado” e que está culpada, é preciso conversar com essa pessoa sem julgamentos, sem demonização, explicando que a saúde depende de comportamentos saudáveis em conjunto e não é definida de forma isolada.

Como diz exatamente o Comer Intuitivo: não se engorda ou tem uma carência nutricional baseada em um dia, uma refeição, ou um evento; o que conta é o progresso, e não a perfeição. Portanto, qualquer consumo alimentar precisa ser colocado em perspectiva, e é por isso que dizemos que não existe alimento bom e ruim.

Nesse sentido, não estamos dando uma diretriz, nem discordando das guidelines. Este posicionamento também não é feito para defender a indústria de alimentos. Estamos comunicando para o público leigo, para pessoas que estão confusas com relação à alimentação e se sentem culpadas, para aquelas que leem MUITAS informações discrepantes e sensacionalistas: que os alimentos precisam ser vistos de outra forma. Todos hoje sabem mais sobre aquilo que deveriam comer mais e aquilo que deveriam consumir menos, e mesmo assim têm dificuldades de colocar em prática, fazendo com que se sintam estressados, culpados e perdidos.

Vamos entender então a questão do fazer as pazes com a comida dentro de um contexto, de um mundo que está confuso em relação a comida, no qual as pessoas têm mais informações, mas não estão necessariamente mais saudáveis. E se queremos que as pessoas comam melhor, precisamos ajudá-las a ter uma relação melhor com a comida.

Por uma Nutrição mais gentil!

 

Instituto Nutrição Comportamental

 

Referências:

  1. Tribole E, Resch E. Intuitive Eating – A revolutionary program that works. New York: St. Martin’s Griffin; 2012.
  2. Nitzke, S., Freeland-Graves, J., Olendzki, B. C., & American Dietetic Association. (2007). Position of the American Dietetic Association: total diet approach to communicating food and nutrition information.
  3. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2 ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.

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